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quinta-feira, 26 de setembro de 2013

Retorno necessário à filosofia moral de Adam Smith

ECONOMIA E MORALIDADE
Adam Smith escreveu a obra A Riqueza das Nações, que foi publicada pela primeira vez em 1776. É uma das primeiras grandes obras de economia. Smith era um filósofo que tratava também da moral – ele conferenciou e escreveu sobre ética e jurisprudência. Em sua obra anterior, A Teoria do Sentimento Moral, ele estabeleceu as bases para o entendimento da moralidade humana em termos de solidariedade (ou simpatia). A administração do “grande sistema do universo (…) é trabalho para Deus e não para o homem”, escreveu Smith. “Para o homem está atribuído um departamento bem mais modesto [...] que é cuidar da própria alegria, da sua família, amigos e país…”. Smith então acrescentou outra observação, que por sua vez abriu as portas para a ciência econômica. Ele disse que “a imodéstia e rapace naturais” dos ricos trazem consequências benéficas – embora não intencionais – aos pobres. Smith afirmou que a troca voluntária de bens e serviços beneficiou a sociedade e o indivíduo: o avanço cultural seria inconcebível sem o comércio. Com o avanço do comércio vem o avanço da solidariedade e do entendimento mútuo. Isso significou, do ponto de vista de Smith, que o progresso econômico pode ser compatível com o progresso moral; com efeito, ele pode até ser essencial ao progresso moral. Leve em consideração como a expansão do comércio pode prevenir guerras conforme várias nações formarem laços de solidariedade por meio da troca de bens. Se os homens forem capazes de prover as coisas uns para os outros pacificamente, por que haveria ódio e conflito para torná-los inimigos?
Não é acidental que esse filósofo moral tenha escrito o primeiro grande livro de economia. Os antigos postulavam a moralidade colocando a seguinte questão: Qual é a boa vida para o homem? Essa questão levou vários filósofos antigos a discussões acerca da virtude e do bem moral. Smith não tentou negar esse pensamento antigo, ele apenas sugeriu que a utilidade é uma virtude em seu próprio direito. Ele escreveu que a sociedade parecia ser uma grande máquina “cujos movimentos regulares e harmônicos produzem milhares de efeitos agradáveis. Assim como qualquer outra máquina bela e nobre produzida pelo artifício humano, aquilo que tender a tornar seus movimentos mais suaves e fáceis obterá a beleza deste efeito…”. Por outro lado, “aquilo que tender a obstrui-la causará desconforto a esse respeito…”. É, portanto, importante descobrir o que faz essa “máquina bela e nobre” funcionar. É a imodéstia do homem? É a ganância?
O homem não é um ser meramente interesseiro, escreveu Smith. O homem é um ser solidário (ou simpático) que aplaude a virtude de Catão enquanto detesta a vilania de Catilina. O primeiro lutou pela liberdade na república romana e o último foi um senador romano amargurado que lutou para destruir a república e formar um regime revolucionário de terror. “Não é entendendo que a prosperidade ou a subversão da sociedade daqueles tempos e nações remotas sejam influentes sobre a nossa felicidade ou tormento atuais”, escreveu Smith, “que [...] estimamos o virtuoso e culpamos os personagens desordenados”. De fato, não há nenhum tipo de ganho próprio em estimar ou culpar pessoas que estão mortas há mais de 2 mil anos. O homem é capaz da preocupação desinteressada e da consideração objetiva. Ele pode imaginar-se no lugar de outra pessoa. Ele pode distinguir o certo do errado em eras distantes e entre pessoas mortas há muito tempo. “A solidariedade não pode, em sentido algum, ser considerada um princípio egoísta”, escreveu Smith. “Quando solidarizo com a tua tristeza ou indignação… (estou me) colocando na sua situação e, portanto, considerando o que eu deveria sentir em tais circunstâncias”. Tal é a base da sociedade, da família, da economia e da amizade. Agimos por nós mesmos, mas também agimos na base da honra e da confiança.
Sendo assim, se quisermos entender Adam Smith corretamente, não devemos concluir que ele diz que os homens são seres interesseiros guiados apenas pela “mão invisível” do mercado. Esse é de fato um conceito importante, mas ele também disse que nossa simpatia natural pelo próximo está constantemente nos direcionando por caminhos incontáveis.   “De toda essa área da natureza humana de onde derivam todos os sentimentos, emoções e amor próprio”, diz Smith, “e que fez muito barulho no mundo – mas que, segundo meu entender, nunca foi total e claramente explicada – parece ter surgido uma interpretação confusa e falsa do mecanismo de solidariedade.”
Da experiência pessoal, muitos de nós percebemos que nossas relações mais íntimas são construídas acima de tudo na confiança: eis a base da própria solidariedade e da economia. Dar sua palavra que algum serviço será realizado é de suma importância para a criação da riqueza. “Dizer a um homem que ele mente”, disse Smith, “é de todas as afrontas a mais mortal. Mas quem quer que minta séria e deliberadamente está consciente de que merece essa afronta, que não merece ser acreditado, que perde todo o direito de receber as benesses, conforto ou satisfação na sociedade em que vivem os outros homens”. A confiança é a base de toda economia assim como a solidariedade (ou simpatia) é a base da confiança. No meio capitalista não estamos empenhados em uma “guerra de todos contra todos”, termo esse cunhado por Thomas Hobbes ao descrever a humanidade em seu estado natural. “Para que se possa refutar tão odiosa doutrina”, escreveu Smith, “foi necessário provar que, antecedente à toda lei ou instituição positiva, o espírito foi naturalmente dotado de uma capacidade que se distinguiu em determinadas ações ou afeições, isto é, distinguir entre o certo, o errado, o culpável e o vicioso”.
Como filósofo moral, Adam Smith atacou a interferência dos governos na economia (com algumas notáveis exceções), apoiou o livre mercado e alertou que os empréstimos descontrolados dos governos podem torná-los beligerantes descontrolados. Ele não estava tentando justificar um sistema de exploração, mas sim tentando entender a própria ordem das coisas. Com efeito, Smith acreditava que a liberdade econômica não era simplesmente um caminho para as riquezas – ele acreditava que era algo moralmente benéfico. Nos dias de hoje nos ensinam a ver as coisas de modo diferente. A moralidade é pouquíssima discutida e já não se acha mais filósofos morais. A própria sociedade já rejeitou vários dos ensinamentos morais prevalecentes na época em que Smith era vivo. Podemos apenas conjeturar quais correções ele faria em seus escritos se vivesse entre nós hoje em dia.
Fonte: Financial SenseMsM

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