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sexta-feira, 25 de setembro de 2015

"Por que eu deixei de ser calvinista (Pt. 2): O calvinismo destrói a justiça de Deus"

OBS.: apesar de ter o título contundente (esse é o título original do artigo), a intenção aqui é uma refutação à ideia, não a pessoas. Há erros, penso, na forma como os calvinistas vêem a justiça de Deus e sua interpretação à luz do que entendem, nas Escrituras. Mas, a discussão aqui é e sempre será no nível das IDEIAS (Nota pessoal). 
Por Robin Phillips
Adaptado por Artur Eduardo
“Que o Senhor te amaldiçoe e te abandone. Que o Senhor te mantenha nas trevas e te dê apenas julgamento, sem graça. Que o Senhor vire as costas para você e remova Sua paz de você para sempre.” Estas palavras, extraídas de um vídeo popular de R. C. Sproul, revelam duramente o lado sombrio do conceito de justiça do calvinista, o qual eu gostaria de explorar neste post.
A maioria dos calvinistas supralapsarianos (e um bom número de não-supralapsarianos ) vai concordar com Herman Hoeksema que “A reprovação existe a fim de que a eleição possa ser realizada. A reprovação é necessária para trazer os eleitos à glória que Deus, em Seu infinito amor, designou para eles …” A ideia aqui é que Deus não poderia ter propriamente salvo os eleitos, e muito menos demonstrado Sua justiça a eles, sem ter um grupo de pessoas com o qual Ele pudesse ficar irado por toda a eternidade.
Imagine um oleiro que trabalhou continuamente até criar uma série de belíssimos vasos moldados com excelência. Mas ele não está satisfeito com isso — ele também deve construir uma segunda classe de vasos a fim de quebrá-los em uma centena de pedaços. Isso prova a todos que ele tem força. O Deus do calvinismo é como este oleiro; ele deve ter duas classes de pessoas: um grupo para o qual demonstrar seu amor e misericórdia, e outro grupo para o qual mostrar a sua ira e ódio ao pecado.
No fim das contas, isso equivale a dizer que Deus odeia tanto o pecado, que quis que o mesmo entrasse em Sua criação eternamente para que pudesse puni-lo para todo sempre. Mas considere cuidadosamente o que isso realmente significa. Por causa de seu imenso ódio contra o  pecado, Ele deve criar o pecado, o qual deve existir eternamente nas pessoas que Ele está eternamente a punir.
De acordo com essa teoria, se Deus tivesse optado por impedir a existência do mal prioritariamente, isso seria pior do que a perpetuação interminável do mal em um inferno eterno, visto que não haveria nenhuma outra maneira de nós sabermos que Deus é justo (para o calvinista nós não temos como saber que Deus é justo a menos que Ele tenha algo com o qual possa estar irado). Assim, isso resume-se a dizer que Deus odeia tanto o mal que deve garantir a sua existência eterna.
O problema é que essa ideia de justiça é derivada da filosofia para o interior da Bíblia. Ela vem da noção filosófica de que Deus é absolutamente simples na sua divindade. Depois de aceitar a premissa de que Deus é uma essência absolutamente simples, o resto do argumento prossegue da seguinte forma (pelo menos da forma que ele foi representado a mim por amigos calvinistas) :
1- Uma vez que Deus é simples, seus atributos não são divisíveis, como somente objetos compostos — e não objetos simples — podem ser divididos;
2- Desde que os atributos de Deus não são divisíveis, Ele deve estar sempre expressando todos os aspectos de Seu caráter em todos os momentos;
3- Justiça e ódio ao pecado são aspectos essenciais do caráter de Deus;
4- Portanto, Deus deve expressar continuamente e eternamente a Sua justiça e ódio contra o pecado, a fim de ser absolutamente simples e, portanto, ser verdadeiramente Deus.
(Quanto à importância da ira de Deus contra o pecado ser eterna uma vez que a simplicidade divina é posta, consulte os artigos em Choosing Hats‘Propitiation, Wrath and Substitution’ and ‘A Further Example of the Importance of Divine Simplicity.’)
A maioria dos calvinistas que defendem essas ideias não percebem que elas têm sua origem na filosofia grega e não na Bíblia, e assim eles ingenuamente pensam que o pacote completo pode ser inferido a partir de alguns versos como Romanos 9:22. Eles não conseguem perceber que a sua filosofia na verdade está criando uma lente pela qual eles leem Paulo.
O ponto 4 (quatro) só se aplicado em termos de eternidade que se estende em direção ao futuro, mas se a lógica da argumentação acima for totalmente aceita, seria necessário que a ira de Deus contra o mal também fosse estendida ao passado, e que, portanto, o mal sempre tivesse existido a fim de Deus possuir um objeto contra o qual mostrar a sua ira. Se um calvinista anular a necessidade do mal estar presente ao longo eternidade passada invocando a noção de que Deus está fora do tempo, então, logicamente, essa noção também poderia ser invocada para anular a necessidade de o mal estar presente pela eternidade.
Como já mencionado, esta teoria diz que Deus odeia tanto o mal que deve garantir a sua perpetuação eterna, pois se em um trilhão de anos, a partir desse momento, houvesse apenas um milésimo de segundo em que Deus não tenha um grupo de pecadores contra o qual estar irado, então isso seria trágico a medida que uma parte integral de Seu caráter (justiça) seria incapaz de ser expressa.
Como Douglas Wilson postou certa vez em seu blog:
Em um mundo sem pecado, dois dos mais gloriosos atributos de Deus — Sua justiça e Sua misericórdia — não seriam exibidos. Isso, obviamente, seria horrível…Em um mundo sem pecado e mal, pelo menos dois dos atributos de Deus não seriam revelados e manifestos, os quais são ira e misericórdia. Uma vez que isso é obviamente intolerável, Deus determinou controlar nossos interesses da maneira que Ele fez.
Jonathan Edwards expressou uma ideia semelhante quando escreveu:
É algo apropriado e excelente que a infinita glória de Deus resplandeça; e pela mesma razão, é apropriado que o brilho da glória de Deus seja completo; isto é, que todas as partes de sua glória devam resplandecer, que cada beleza deva ser proporcionalmente fulgurante, a fim de que aquele que olha tenha uma noção adequada de Deus. Não é apropriado que uma glória deva ser excessivamente manifesta , e outra não…Assim, é necessário que a aterradora majestade de Deus, sua autoridade e terrível grandeza, justiça e santidade devam ser manifestas. Mas não poderia ser assim , a menos que o pecado e a condenação tivessem sido decretados; ou o fulgor da glória de Deus seria por demais imperfeito, tanto porque essas partes da glória divina não resplandeceriam tanto quanto as outras, e também porque a glória de sua bondade, amor, e santidade seria apática sem elas; não, elas ilustrariam de forma pobre seu fulgor. Se não for certo que Deus deveria decretar e permitir e punir o pecado, não poderia haver nenhuma manifestação da santidade de Deus pelo ódio ao pecado; ou em, pela sua providência, preferir a piedade [em lugar do pecado]. Não haveria nenhuma manifestação da graça de Deus ou verdadeira bondade, se não houvesse pecado a ser perdoado, ou miséria a ser revertida. Por mais felicidade que ele concedesse, a sua bondade não seria mais estimada ou admirada…Assim, o mal é necessário, para felicidade maior da criatura, e a perfeição da manifestação de Deus, para a qual ele fez o mundo; porque a felicidade da criatura consiste no conhecimento de Deus, e no senso de seu amor. E se o conhecimento dele é imperfeito, a alegria da criatura deve ser proporcionalmente imperfeita.
A mesma noção está presente nas obras de Santo Agostinho:
… se tudo tivesse permanecido condenado à punição exigida pela justa condenação, então a graça misericordiosa de Deus não teria sido vista em ação em ninguém, por outro lado, se tudo tivesse sido transferido das trevas para a luz, a verdade da vingança de Deus não se faria evidente. —City of God 21.11
Agostinho defende este ponto de vista comparando-o à beleza da antítese que encontramos na literatura:
O futuro estado mal [do homem] … enriquece o curso da história do mundo pelo tipo de antítese que dá beleza a um poema. A ‘antítese’ fornece a mais atraente imagem nas composições literárias … A contrariedade dos opostos dá uma beleza adicional ao discurso; e da mesma forma há uma beleza na composição da história do mundo, decorrente da antítese dos opostos — uma espécie de eloquência nos eventos, em vez de nas palavras. — City of God 11.17
Curiosamente, Agostinho inconscientemente importou essa ideia para dentro da teologia cristã a partir de sua base maniqueísta, a qual foi retomada e mais sistematizada pelos reformadores. Nós percebemos o quão comprometida é a teoria de Agostinho sobre o mal com sua base maniqueísta na seguinte citação, onde o bem e o mal criam uma antítese necessária para manter o equilíbrio do universo:
E assim, os males, os quais Deus não ama, não estão separados da ordem. Entretanto, Ele ama a própria ordem. Ele tem prazer exatamente nisso: amar as coisas boas, e não amar as coisas más — e isto em si mesmo é algo da magnífica ordem e do arranjo divino. E porque este arranjo ordenado mantém a harmonia do universo por este exato contraste, segue-se que as coisas más devem necessariamente existir. Desta forma, a beleza de todas as coisas é de tal  forma configurada, por assim dizer, a partir de antíteses , ou seja, a partir de opostos: isto é agradável a nós, mesmo no discurso.
Não é suficientemente bom criticar tais ideias apenas por causa de suas origens pagãs, embora o fato dessas teorias possuírem suas raízes nos pilares da filosofia e do Maniqueísmo devesse deixar qualquer Calvinista inquieto.
O problema com essas conjecturas é que elas essencialmente afirmam que Deus exige um oposto (antítese) para que Ele seja bom, ou pelo menos para que Sua bondade seja completamente realizada e manifestada. Elas nos obrigam a afirmar (pelo menos se formos coerentes), que por toda a eternidade a bondade e justiça inerentes à Santíssima Trindade sempre foram incompletas, porque foi necessário o aparecimento do mal para que todas as potências não manifestadas na Divindade pudessem finalmente ser realizadas.
Esta implicação é clara na excelente obra de John Piper Desiring God e também em sua menos excelente The Pleasures of God. Piper sugere que a dor, o mal e a miséria de alguns são uma pré-condição necessária para a crescente satisfação dos santos. Isso parece deixar-nos com uma espécie de dualismo, visto que torna Deus eternamente dependente do mal. Novamente, se levado à sua conclusão lógica, isso implicaria que o mal deve ser tão eterno quanto a Santíssima Trindade.
Por outro lado, se os membros da Trindade são completamente auto-suficientes e poderiam apreciar plenamente a sua própria justiça independente da criação, então, presumivelmente, também seria possível para os filhos redimidos e glorificados de Deus apreciar a bondade e a justiça de Deus independente da existência do mal, a menos que possamos produzir um primeiro argumento a priori contrário (o que, é claro, nenhum professor de Agostinho a John Piper foi capaz de fazer).
Se o mal é necessário para que a bondade de Deus seja manifestada, e se a manifestação de tal bondade é uma parte crucial do que significa para Deus ser Senhor (visto que, de outra forma, o ódio de Deus pelo pecado não poderia encontrar um escape), então segue-se que a criação é necessária para Deus ser Deus, como a própria criação é uma pré-condição para o mal. Nesse caso, Deus não seria Deus antes da criação. Logo, a criação não é um excesso da abundância de Deus, mas algo que era necessário a realização de um determinado aspecto de Seu caráter. Essas terras são incomodamente próximas daquilo que alguns Arianos propuseram. Eu sei que foram os Arianos quem afirmaram que para Deus ser Deus, Ele deve eternamente ser o Senhor sobre algo; logo, o Filho deve ser eternamente subordinado à autoridade de Deus o Pai. Uma lógica semelhante está por trás de muita especulação calvinista.
Por causa disso, minha esposa e eu percebemos que é melhor simplesmente dizer que é um mistério o porquê Deus permitiria o mal, em vez de tentar dar uma explicação filosófica problemática como a dos Calvinistas. O mal certamente existe, então deve haver alguma explicação para ele que não comprometa os atributos de Deus, visto que termos como bondade, justiça e amor não podem ter nenhum significado à parte de Deus. Sabemos pela Bíblia que Deus permite o mal a fim de extrair o bem dele, mas isso é tudo que sabemos. Se tentarmos preencher as lacunas de nosso entendimento com a explicação Agostiniana/Calvinista somos forçados a acreditar que o amor de Deus, a graça, a bondade, etc., só são inteligíveis em um mundo marcado pelo mal. Em um nível puramente prático, isso não faz sentido. Eu não preciso ir até o aterro e contemplar o lixo lá a fim de reconhecer a beleza da natureza. Eu não preciso me alimentar de frutas em putrefação e pão podre a fim de desfrutar de costeletas de cordeiro. Da mesma forma, tenho certeza de que as pessoas da Santíssima Trindade eram plenamente capazes de apreciar o amor uns do outros antes do advento do mal.
Novamente, eu não posso dar uma explicação alternativa sobre o motivo pelo qual um Deus que é todo-poderoso, onisciente e completamente bom permitiria a existência do mal. Enquanto sabemos pelas escrituras que o Senhor permite o mal a fim de extrair bem dele, não sabemos, em última análise, por que Ele escolhe demorar-se enquanto Seu povo sofre perseguição ou por que Ele permite ao ímpio prosperar. Este é um mistério para nós, assim como era um mistério para os salmistas ou para o paciente Jó. Nós simplesmente não sabemos como Deus pode ser o sumo bem, onisciente e todo-poderoso, e ainda assim o mal possa existir. Esta não é apenas uma questão filosófica profunda, mas é também uma questão existencial real — especialmente para os cristãos que foram vítimas de crueldade e injustiça.
O problema com o Calvinismo é que sua busca pela clareza racionalista acaba com esse mistério necessário. O Calvinismo afirma que o mal existe porque Deus deseja que ele esteja lá — fim da história. Como Calvino coloca em suas Institutas da Religião Cristã, “Eu digo, com Agostinho, que o Senhor criou aqueles que, como certamente sabia de antemão, iriam para a perdição, e o fez porque assim quis.”, enquanto mais tarde Calvino estende essa ideia para seu corolário consistente, o qual é que “o homem, pelo justo impulso de Deus, faz o que é injusto.” Em outras palavras, de acordo com Calvino, o pecador peca porque Deus impele-o a fazê-lo.
Calvino trouxe este mesmo tema mais tarde, quando escreveu:
O homem cai porque assim o ordenou a providência de Deus … que foi pela vontade de Deus que todos os filhos de Adão caíram nesta miserável condição em que ora se acham envolvidos …. Nem deve parecer absurdo o que digo: Deus não só viu de antemão a queda do primeiro homem e nela a ruína de sua posteridade, mas também por seu próprio prazer a ordenou.
Deus, por Seu próprio prazer, ordenou o mal?
Estas são palavras difíceis, especialmente porque elas parecem envolver diretamente a Deus em toda a maldade do mundo. Elas facilmente resolvem o problema do mal, mas fazem isso às custas de outro ensinamento bíblico. Por exemplo, o Salmo 5:5. Na Septuaginta — o texto do Antigo Testamento citado por escritores do Novo Testamento e o texto canônico da antiga Igreja — Salmo 5:4 lê ” Tu não és um Deus que tenha prazer (Thelon) na injustiça (anomian).”
Para ser justo com Calvino, ele foi capaz de manter certo grau de equilíbrio dialético que estaria faltando em seus seguidores. É por isso que a minha crítica ao Calvinismo reconhece que o Calvinismo é maior do que simplesmente os ensinamentos de João Calvino. Eu me convenci disso quando a nossa antiga igreja realizou um acampamento para a família e convidou RC Sproul, Jr. para falar. O Sproul mais jovem levou os ensinamentos de Calvino a tal extremo, indo ainda mais longe do que seu pai — quanto mais ao próprio Calvino. Por exemplo, Sproul deleitou-se ao descrever em detalhes o quanto Deus desejou que o pecado acontecesse, e a maneira como Deus forçou o diabo a pecar semelhante a um homem operando controle remoto. Em seu livro Almighty Over All, Sproul desenvolve este ponto, escrevendo : “Eu estou sugerindo que ele [Deus] criou o pecado … Onde, devo perguntar, a lei de Deus proíbe a criação do mal? Eu sugeriria que essa proibição simplesmente não existe. “
Isto leva ao que eu considero ser uma banalização do mal.
R. C. Sproul Jr. postou um status no Facebook dizendo que uma vez que Deus é soberano, mesmo aquelas coisas que não são como deveriam ser, são exatamente como deveriam ser. Ele prosseguiu dizendo que, em última análise, não existem coisas “más”, uma vez que Deus é completamente soberano. Agora, se isso significa que mesmo as coisas más cooperam, em última análise, para o bem, então eu não tenho nenhum problema. Mas há uma grande diferença entre dizer, por um lado, que Deus extrai o bem do mal, e, por outro lado, dizer que visto que Deus é o autor de todas as coisas, o mal não é muito ruim (ou que tudo que acontece deveria acontecer).
Se, conforme Sproul sustenta, Deus é o autor do mal, então teríamos de dizer que Ele promove a maldade no coração das pessoas. Mas se assim for, então Deus é pecador pelas definições bíblicas do pecado e do mal. Considere que, em Provérbios, aqueles que incitam e seduzem ao mal (como os amigos do tolo ou a prostituta) são tão moralmente culpados quanto o homem simples que foi vítima dessas tentações. Tiago diz que Deus não nos tenta, mas se Deus é o autor do mal, então Ele está fazendo muito mais do que simplesmente nos tentar: Ele está promovendo o mal em nossos corações e incitando-nos a pecar.
Neste esquema , as palavras “Deus é bom” não são mais inteligíveis, a medida que Deus está violando Sua própria auto-revelação do significado de “bondade”. Consequentemente, se Deus realmente é o princípio ativo por trás da semente da mulher e da semente da serpente, então, teríamos de concluir que as categorias bíblicas usadas para descrever Deus são, em última análise, não-descritivas. Ademais, isso faria da antítese que encontramos ao longo dos Salmos de guerra uma zombaria, se Deus for a força causal por trás de ambos os lados.
Além disso, se Deus é o autor do mal, então teríamos de concluir que, assim como a bondade, o mal é uma parte intrínseca do caráter de Deus. Mas nesse caso, ficamos sem um padrão para distinguir entre o bem e o mal. Logo, usar o caráter de Deus como padrão seria semelhante ao usar uma fita métrica na qual as escalas em polegadas e centímetros estão todas misturados. Deus só pode ser o padrão para a distinção entre o bem e o mal se o primeiro, e não o último, for fundamental para o Seu caráter.
Isto tem implicações pastorais quando se lida com pessoas que foram vítimas de sofrimento ou abuso. Alguns calvinistas extremados vão enfrentar a dor humana com as palavras do famoso hino de Rodigast: “What ‘er my God ordains is right” (O que meu Deus ordena está correto). Sua abordagem é: “Isso está acontecendo; portanto, Deus ordenou isso; portanto, deve estar correto”. Felizmente, a igreja calvinista que participamos não era tão reducionista, mas o mesmo não pode ser dito de muitos outros. Por exemplo, o Dr. Morton H. Smith, um dos fundadores do PCA, gostava de pregar para suas congregações que, quando confrontados com o mal ou o infortúnio, a única resposta apropriada é: “Eu não teria nenhuma outra maneira.”
É verdade que eu examinei, na maioria dos casos, certas representações extremas/supralapsarianas do calvinismo. Mas, mesmo na teologia reformada mais moderada, vemos uma distorção do ensino real da Bíblia sobre o tema da justiça. Tanto no Antigo como no Novo Testamento, vemos que a justiça realmente não trata sobre Deus punir o pecado como um fim em si mesmo; a justiça versa mais sobre Deus endireitar as coisas. Por certo, quando Deus endireita as coisas, isso envolve julgamento contra o pecado, mas a Bíblia tende a colocar essa justiça dentro do contexto de sua fidelidade à aliança com o Seu povo, de uma forma que muitas vezes falta ao pensamento calvinista sistemático.
Objeção #1: Sua crítica sobre conceito Calvinista de justiça desaprova as conclusões da teologia Calvinista sem na verdade apontar exatamente onde o Calvinismo erra no processo de argumentação bíblica que o leva a essas conclusões. É insuficiente meramente julgar as conclusões da teologia reformada censuráveis, se você não demonstrar pelas escrituras que as premissas que levam a essas conclusões estão erradas.
Resposta à Objeção #1: Esta objeção é facilmente respondida citando uma questão feita pelo matemático John Byl em The Divine Challenge. Byl escreve que “se a falsidade da conclusão é mais plausível do que a veracidade das premissas, então é racional rejeitar as premissas… A vantagem deste método de refutação é que não é preciso identificar exatamente onde ocorreu o erro inicial.” Esta é a abordagem que tenho tomado na minha crítica ao calvinismo. A falsidade das conclusões calvinistas é tão evidente que não é necessário, na verdade, mostrar onde a argumentação que conduz a essas conclusões está errada.
Objeção #2: Algumas das implicações que você desenha a partir do conceito calvinista da justiça, tais como o seu argumento sobre a Trindade, seria repudiada por qualquer calvinista que se preze. Isto sugere que, mais uma vez, você está desvirtuando o calvinismo e criando espantalhos.
Resposta à Objeção #2: Se a objeção acima fosse verdadeira, então qualquer argumento reductio ad absurdum seria uma espécie de representação equivocada. Por exemplo, considere o seguinte argumento:
1- Michael diz que P é verdadeiro.
2- Mas se P é verdadeiro, então Q segue.
3- Q é claramente um absurdo.
4- Portanto, o que Michael diz sobre P não pode ser verdade.
Suponha que você é Michael no exemplo acima, e que você discorde. Você poderia disputar a premissa um, e dizer que eu compreendi mal. Ou você poderia disputar a premissa dois argumentando que Q não decorre P. Ou, você poderia disputar a premissa três e argumentar que Q não é um absurdo. Em todos esses casos, a conclusão na premissa quatro deixaria de seguir, mas em apenas um caso (o primeiro) você poderia afirmar que eu não entendi você; ou seja, somente contestando o meu argumento e afirmando que a premissa um é falsa, você seria capaz de legitimamente alegar que eu lhe compreendi equivocadamente. Mesmo se você protestasse fortemente contra a premissa dois e discordasse veementemente que Q segue de P, você ainda não poderia legitimamente argumentar que eu distorci sua declaração, a menos que eu alegasse que você também expôs Q como uma implicação de P.
Seja P a defesa da ideia calvinista de que Deus deve ter um grupo de pessoas com o qual Ele esteja eternamente irado, a fim de demonstrar a sua justiça; e seja Q a defesa de algumas das implicações que eu invoquei. Aqui está a falha: mesmo se eu estiver errado que Q decorre P, isso por si só não é suficiente para provar que eu distorci a posição calvinista, a menos que eu também alegasse que eles também afirmaram esta implicação. Mas em nenhum lugar da argumentação acima eu aleguei que os calvinistas afirmam a implicação que eu expus, e justamente por isso, não pode ser legitimamente argumentado que eu não compreendi.



Robin Phillips
Robin Phillips é o autor de Saints and Scoundrels e um editor que tem contribuído para uma série de publicações, incluindo Salvo MagazineTouchstone e Chuck Colson Center. Ele está trabalhando em um Ph.D. em teologia histórica na King’s College, Londres e blogando em Robin’s Readings and Reflections

Um comentário:

Edu Marques disse...

Então, porque Deus previu o pecado e não fez nada para impedir?
Deus previu no futuro que ele não criou quem iria aceitar ele e dependendo da escolha,mudaria todo o futuro que Ele(Deus) não criou?
Que escolha teria aqueles que Ele previu que não iria crer?
Se eles em um segundo qualquer aceitasse a Cristo, Deus continuaria não sabendo do futuro?

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