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sábado, 30 de abril de 2016

Armadilhas da inspiração moderna

As pessoas gostam de coisas estranhas. Alguns meninos do interior do Brasil gostam de comer barro (de capitais também); há mulheres que gostam de futebol e homens que gostam de novelas; há pessoas que gostam de…. nada. Isso mesmo. De certa forma, nossa cultura contemporânea é, em grande parte, fruto da melancolia do fim da modernidade. Notável é que, quanto mais melancólicas, mais algumas pessoas conseguem criar belas artes, cujo impacto cultural não pode ser mensurado facilmente. Este impacto, contudo, uma vez fruto de um “velho-novo” hábito artístico nas mentes (pós)modernas, torna-se simultaneamente causa e consequência daquilo mesmo que o originou. No caso, refiro-me à melancolia moderna. A expressão maior deste sentimento, muito presente nas vidas e obras de artistas contemporâneos, é o famoso niilismo, o qual posso resumir numa inexplicável fascinação pelo nada. Isso mesmo! O nada, o vazio, o fim absoluto é justamente o ponto de partida para muitas obras que, por sua vez, influenciarão mais pessoas a uma maior e mais abrangente fascinação pelo nada, pelo vazio, pelo fim absoluto,numa espiral aparentemente paradoxal, onde o nada torna-se,  “causa” de algo (que o velho Parmênides me perdoe!…).
Contudo, creio que posso me redimir ante Parmênides, filósofo pré-socrático tão avesso à ideia de vazio, do não-ser. Na verdade não é o nada que está causando algo, mas o fascínio pelo nada, o que já é algo. Fascinar-se, aliás, é essencialmente a mola propulsora que move o escritor, o autor, o escultor, o pintor, o músico, o ator, enfim, o artista que será a causa eficiente de uma obra que, dada a genialidade devida, parecerá criar vida própria, sendo mais do que um mero “porta-voz” de determinado estado de espírito de quem o(a) criou. É por isso que não devemos subestimar nenhuma forma de arte que o Homem produz, pois a arte tem essa característica um tanto mágica, misteriosa, de transmitir mensagens como que por vida própria. E estas mensagens soam de modos diferentes para pessoas diferentes. Tais diferenças, em geral, às que me refiro aqui, não são porém de qualidade, mas de quantidade. Não há, ao meu ver, como alguém pode extrair felicidade de uma peça feita, criada para destacar morbidez. Sentir alegria do mórbido é puro nonsense. Daí a conclusão que me parece óbvia: uma peça mórbida irá provocar consequentemente mais ou menos morbidez na maioria das pessoas normais, sendo que esta mesma morbidez, por sua vez, será causa de mais ou menos morbidez de pessoa para pessoa.

Hoje, inspirar é relativamente fácil, se você tiver talento e for esperto o suficiente para usar os meios necessários de que dispomos – principalmente os tecnológicos – a fim de fazer conhecidas suas ideias e expor seu talento. Decidi, então, usar um exemplo qualquer de determinada peça artística que fosse fruto de alguém ou algum grupo que, certamente, é ou foi motivo de inspiração para muita gente. Na pós-modernidade o niilismo avançou com força total, evolução da ideia de mera abstração filosófica dos moldes do século XIX, para um enlace pragmático avassalador nas letras e performances de bandas de pop rock do mundo contemporâneo. Sendo assim, não foi tão difícil valer-me de uma canção dessas bandas, cuja melodia é envolvente, justamente porque a inspiração moderna está presente numa elevadíssima intensidade. O resultado não poderia ser outro: genialidade misturada à melancolia do niilismo que é tão ovacionado por uma juventude que gosta de curtir a morbidez do vazio (ainda que em sua maioria desconheça os significados de “niilismo” e “mórbido”). Mas, como a questão não é semântica e sim de ordem prática, o legado melancólico do niilismo filosófico do século XIX desembocou como uma avassaladora força pragmática em uma considerável parcela artística da música do século XXI…….e você quer um exemplo melhor de arte pragmática do que um show de pop rock?

A música em questão tem até um título sugestivo, Empty (Vazios), e é da cultuada banda The Cranberries, cuja sonoridade vocal da líder, Dolores O´Riordan, é uma marca indelével de boa parcela da preferência musical dos jovens ocidentais. Ei-la:

Empty

Something has left my life
And I dont know where it went to
Somebody caused me strife
And its not what I was seeking
Didn’t you see me? Didn’t you hear me?
Didn’t you see me standing there?
Why did you turn out the lights?
Did you know that I was sleeping?
Say a prayer for me
Help me to feel the strength I did
My identity has it been taken
Is my heart breaking
On me?
All my plans, they fell through my hands
They fell through my hands
On me
All my dreams, it suddenly seems, it suddenly seems
Empty.


Vazios

Algo levou minha vida
E eu não sei para onde ela foi
Alguém me causou um conflito
E não é o que eu estava procurando
Você não me enxergou? Você não me escutou?
Você não me enxergou parada lá?
Porque você desligou as luzes?
Você sabia que eu estava dormindo?
Faça uma oração por mim
Me ajude a sentir a força que eu sentia
Minha identidade foi levada
Meu coração está se partindo
Em mim?
Todos os meus planos caíram das minhas mãos
Eles caíram das minhas mãos em mim
Todos os meus sonhos de repente parecem, De repente parecem
Vazios
Vazios.
  
Quanta intensidade para falar do….. vazio! Notou que é sobre isso que a música trata? Identidade, planos, sonhos….vazios. Mas, curiosamente, misturada à melodia instrumental e, obviamente, à performance da vocalista, a música ganha certo sentido! Faz sentido escutá-la, mesmo que ela essencialmente trate do…..nada! O que sobra, então, senão nada? É aqui que vemos o paradoxo aparente: nada causando algo. Mas, o paradoxo é só aparente. De fato, algo está causando algosentimento acerca do nada, que, com toda a probabilidade foi um, senão o maior, motivo de inspiração da canção, e é o que, na verdade, inspirará outros tantos a divulgarem o trabalho do The Cranberries (o que, diga-se de passagem, já tem sido feito: o grupo agradece). O que, portanto, torna o feito de uma música de determinado grupo da Irlanda ser celebrada mundo afora, quando sua mensagem é basicamente sobre “vidas, planos e sonhos vazios“? A resposta não pode ser só a letra ou o conteúdo imediato do centro da canção, muito menos apenas a forma como aquela mesma mensagem vem “embrulhada para presente”, isto é, o arranjo melódico para os ouvidos de adolescentes e jovens, homens e mulheres, que com certeza inspirar-se-ão escutando Vazio do The Cranberries. Ora, mas se a coisa não está presente no conteúdo apenas, ou somente na forma, onde estaria? Resposta: no legado contemporâneo da melancolia niilista da modernidade, cujo apelo encontrou sua “galinha dos ovos de ouro” nas pragmáticas performances dos palcos de bandas de pop rock “deprê”, as quais, por sua vez, encontram guarida nos corações de adolescentes e jovens ocidentais, os tornaram-se cultores do niiliismo. Este perpetua-se, como na canção do Cranberries: ocasionalmente sendo a principal causa de verdadeiras “obras-primas contemporâneas” . 

Opa, espere aí!…. Antes de deduzir se gosto ou não do Cranberries, chamo a atenção para algo para uma pergunta muito mais importante do que uma simples questão de preferência mundana. Por quê? Por que há tantos adolescentes e jovens que juntam-se para ouvir uma bela melodia sobre o nada? Ou por que afastam-se do mundo real e perdem-se no ilusório encanto que parece ter o vazio? Jovens absortos e cultores do vazio tornar-se-ão pais, mães, sociólogos, psicólogos, filósofos, professores, pedagogos não menos entusiastas do mesmo vazio, o qual podemos chamar de niilismo pragmático, dada a força com que se propaga, auxiliado pela inestimável contribuição da tecnologia, o que o faz chegar não só aos recônditos da Terra, como, na mesma proporção, aos recônditos da alma. À medida em que a cultura do niilismo pragmático se dissemina, aumenta o nível de inspiração que este mesmo sentimento quanto ao niilismo causa, o que gerará ainda mais niilismo, ao ponto de vermos, como temos cansativamente visto, nosso sentimento em relação ao vazio como uma das maiores fontes de inspiração para um sem número de adolescentes e jovens filhos da modernidade, tornando-se infelizmente “a geração do nada”. Ora, se cultuamos de um modo geral o nada, não é necessário ser um Ph.D. em astrofísica para saber que é muito fácil observarmos que tudo o que advém da cultura do nada encontra espaço proeminente no campo da inspiração artística (pós)moderna. Logo, o nada passa a ser objeto central de um “culto” (“cultura”, entendeu?) que evocará o vazio para quaisquer áreas dos nossos sentimentos. Não é sem explicação, por exemplo, que o tema da morte seja tão cultuado nos dias atuais. E tornou-se, aliás, uma obsessão para muitos pensadores, filósofos do século XX, os quais tentaram encontrar resposta às suas indagações na serenidade do vazio incognoscível da morte.


Como um fim inevitável, a morte passou a ser algo, para nós como sociedade, um assunto que beira a veneração. Voltemos à chamada cultura pop no cinema. Há décadas que não se celebra a vida, mas a morte, ou, ao menos, as situações ridiculamente desesperadores em que os personagens de variadas películas, ou perderam suas vidas ou passaram um bom tempo em situações de iminência da morte. São estas mesmas situações que fazem com que venhamos a prestar nosso “culto” à determinado filme, e, aqui, digo “culto” no sentido de “reverenciarmos”. Não me entenda mal, prezado leitor. Não falo de “reverência” no sentido formal da palavra, mas no sentido prático. Se desprendermos horas e horas anuais para assistirmos fugas eletrizantes, tiroteios inimagináveis, destruições apocalípticas, mortes nos mais elevados graus de criatividade, associando isso tudo a vampirismo, licantropia (ou “lobisoinismo”..rs), bruxaria e suas evocações de mortos, além da moda do momento, zumbis, então podemos afirmar que a indústria da 7ª Arte entendeu que, não somente reverenciamos a morte – e tudo o que ela filosoficamente representa -, como estamos dispostos a pagar montanhas de dinheiro para nos aproximarmos dela e do quanto ela nos fascina.

 

Você, prezado(a) leitor(a), talvez ainda não tenha feito todas as associações sugeridas neste breve texto; mas, de tudo o que foi dito, gostaria de que meditasse na assertiva que tentei defender, ao longo do texto, ou seja, que este legado moderno influenciou muitos e os mais variados aspectos de nossa cultura: da política às relações intrafamiliares, o niilismo pragmático inspirou ideias que, a médio e longo prazos, dividiriam reinados, destruiriam nações (vide a histórias nas nações politicamente niilistas, como as comunistas), ceifariam milhões de vidas e que, por fim, alastrar-se-iam por todo o hemisfério ocidental, agarrando-se à alma do jovem contemporâneo para fazê-lo “curtir” a condição de estar perdido dentro de si mesmo. O niilismo é uma espiral sem fundo que surge diante da consciência humana como uma armadilha mortal. Os que nela caem, a princípio não se machucam, mas, curiosa e estranhamente, veem-se diante de uma espécie de poço sem fundo, no qual, durante a queda, desapercebidamente passamos por uma infinidade de outras armadilhas. 

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