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segunda-feira, 9 de março de 2015

A confusão fatalista que admite o “determinismo irrestrito” como argumento válido, mas tropeça (feio) na lógica modal

Há algum tempo o Pr. e prof. Gaspar de Souza, amigo de longas datas, traduziu um artigo do blog “Reformed Apologist” para seu blog pessoal, “Eis Nosso Tempo” (http://profgaspardesouza.blogspot.com.br/2013/08/molinismo-problemas-problemas-e.html). O referido texto/artigo é intitulado “Molinismo – problemas, problemas, problemas”. Temos posicionamentos teológicos e filosóficos diferentes quanto à questão do “Determinismo Teológico”. Apesar de nossos eventuais “embates” (debates em rádios, tv ou mesmo pela Internet), aprendemos a respeitar-nos e centrarmos nossos esforços filosófico-apologéticos no combate às ideias (não às pessoas), por mais absurda ou ridícula que uma afirmação ou posicionamento possa parecer para o outro. Este texto passará por uma análise nossa – cujas observações estarão emnegrito vermelho), pois, pelo que vi, expressam de um modo geral a crítica calvinista à questão do “Determinismo”, conforme defendida pelo eminente apologista cristão William L. Craig, além de outros grandes nomes, na História. O que se caracteriza por “Molinismo” é, na verdade, um somatório de construções argumentativas e deduções lógicas que se formaram ao longo dos séculos da era cristã. Vamos ao texto e às nossas considerações:
"Molinistas e Calvinistas concordam sobre a validade do argumento a seguir, onde X é uma escolha pessoal (Nota: chamaremos de “Argumento 1″):
  1. Necessariamente, se Deus conhece X de antemão, então X acontecerá;
  2. Deus conhece X de antemão
  3. Então, X acontecerá.
Molinistas e Calvinistas até concordam que o seguinte argumento, como escrito, é falacioso (Nota: chamaremos de “Argumento 2″): 
  1. Necessariamente, se Deus conhece X de antemão, então X acontecerá
  2. Deus conhece X de antemão.
  3. Então, X acontecerá necessariamente.
Nota: de fato, o argumento é falacioso. Chama-se “Falácia da Necessidade do Consequente”. Filósofos medievais, como aponte o dr. William L. Craig, “…reconheceram essa falácia e a classificaram como uma confusão entre necessitas consequentiae (necessidade das consequências ou da inferência) e necessitas consequentis(necessidade do consequente)…” (CRAIG, W.L; MORELAND, J.P.Filosofia e Cosmovisão Cristã. São Paulo: Vida Nova, 2005, pg. 75).
A falácia em vista é aquela de transferir a necessidade da inferência para a conclusão. Todavia, o Molinista não aceitará que a falácia possa desaparecer em um número de modos diferentes. Um modo é por estabelecer que uma condição necessária para a presciência de Deus sobre X é a necessidade de X. Os Molinistas afirmam que X ocorrerá, não necessariamente, mas contingentemente. Claro, um X contingente, por definição, possivelmente pode não ocorrer.  Então, os Molinistas são deixados com Deus conhecendo que X pode não ocorrer enquanto sabe que X ocorrerá – mas estas são verdades contraditórias e, então, impossível para Deus conhecer. Assim, a presciência de Deus de X pressupõe a necessidade de X pela simples razão que pode e serásemanticamente antitético e é verdade que X ocorrerá. Conseqüentemente, se X ocorrerá, então é falso de que [talvez] possaocorrer (Nota: chamaremos de “Argumento 3″).
  1. Necessariamente, se Deus conhece X de antemão, então X acontecerá
  2. Necessariamente, Deus conhece X de antemão
  3. Então, X necessariamente acontecerá.
Nota: perceba que aqui houve um erro, aliás, dois erros graves. O primeiro é insistir no termo “molinismo”, quando a questão já era prevista e considerada desde Boécio (480-525), no seu “Do Consolo pela Filosofia“. Bem, Tomás de Aquino (1225-1274) foi um dos que melhor tratou a questão da inferência do consequente e Luis de Molina (1535-1600) deu uma roupagem mais sofisticada, trabalhando a hipótese dos três tipos de conhecimento onisciente de Deus: o natural, o médio e o livre. A ideia central do chamado “molinismo” é, em suma, conciliar a presciência de Deus e sua ação através das ações “livres” dos homens, estabelecendo-se, portanto, uma teoria que não prescinde da soberania de Deus em prol da liberdade humana, ou vice-versa, não prescinde da liberdade humana em prol da soberania divina. Há questões complexas no molinismo, e não concordo com todas, mas é inegável que, a exemplo de seus predecessores, o molinismo possui uma resposta elegante e racional para a questão livre-agência humana x soberania divina. 
O outro erro da questão é de contradição. Observe que se admitiu, no início que o “Argumento 2″, que este era falacioso. Agora, o autor afirma que “não é mais falacioso”, pois, segundo escreveu, a premissa “Deus conhece X de antemão” é IDÊNTICA a esta outra, “Necessariamente, Deus conhece X de antemão”. Ele argumento que o conhecimento prévio de X IMPLICA NECESSARIAMENTE no acontecimento de X, e, consequentemente, no acontecimento de X, ou seja, justamente a forma que se sabe ser falaciosa. O conhecimento prévio de X NÃO IMPLICA no acontecimento de X (necessariamente), pois, abre-se a questão da possibilidade. Esta abertura nos remete à ideia de várias possibilidades, todas contingentes, as quais Deus sabe (este é ponto central da verdadeira onisciência). A questão não é que Deus sabe previamente de UM ACONTECIMENTO X, o que obviamente implicaria necessariamente neste acontecimento X: Deus sabe de TODOS os ACONTECIMENTOS POSSÍVEIS, inclusive o acontecimento X, que só pode existir contingentemente. E o pior: mesmo admitindo a falácia da inferência do consequente, alguns calvinistas esforçam-se para afirmar que isto “não é fatalismo”!!! Bem, para mim, “cheira”, parece, tem a forma e todas as demais características do mais frio fatalismo. 


Os Molinistas negam que Deus necessariamente conhece X de antemão. De fato, o papa do Molinismo, Willian Lane Craig, afirma que “a Teologia Cristã sempre tem mantido que a criação do mundo é um ato livre de Deus, que Deus poderia ter criado um mundo diferente – no qual X não ocorre – ou até nem [criado] um mundo. Dizer que Deus necessariamente conhece um evento X de antemão implica que este é o único mundo que Deus poderia ter criado e, assim, nega-se a liberdade divina”.
Apenas de passagem, observe que os Molinistas não são tipicamente bem vistos nas áreas de Teologia Reformada Sistemática e Histórica, do Protestantismo Reformado. Na parte IV, seção VII do Clássico de Jonathan Edwards, The Freedom of the Will, Edwards tem muito a dizer sobre este assunto sob o título “Acerca da Necessidade da Vontade Divina”.[1] Edwards, eloqüentemente, afirma que “ninguém discute qualquer dependência da vontade de Deus, que sua suprema sábia volição é necessária, que isto infere uma dependência de seu ser, que sua existência é necessária. Se for alguma coisa muito insignificante para o Supremo Ser ter sua vontade determinada pela necessidade moral, assim [será] tão necessária em todo caso a vontade santa e ditosa em mais alto grau. Então, por que também não é insignificante para ele ter sua existência, e a perfeição infinita de sua natureza, e sua infinita felicidade, determinada por necessidade. Não é mais desonra para Deus ser necessariamente sábio do que ser necessariamente santo… e, em todo caso, agir mais sabiamente ou fazer as coisas mais sábias de todas; pois a sabedoria é, também, em si mesmo excelente e honorável… mais uma coisa a ser observada antes de concluir esta seção. Que, se isto em nada invalida da glória de Deus necessariamente determinada pela condição superior em alguma coisa; então, também não deve ser assim determinada em todas as coisas.
Meu apelo a Edwards como um representante da Teologia Reformada Ortodoxa é simplesmente mostrar que a observação de Craig é, no mínimo, injustificável. Pensadores reformados consideram as escolhas livres libertárias uma irracionalidade filosófica, da mesma forma que a noção metafísica boba pertencente ao homem, mas como também pertencente a Deus. Não apenas Molinistas como Craig não percebem que a necessidade da vontade divina é sustentada por um vasto número de Calvinista, [mas] observam também a imprecisão das observações de Craig onde ele fala de liberdade. Molinistas não fazem distinção alguma entre a liberdade (ou seja, a capacidade de escolher como se quer) e o poder de escolha contrária, que é a alegada capacidade de agir de forma contrária à forma como se queria (livre-arbítrio libertário). Os dois [tipos] são os mesmos para o Molinista; no entanto, a primeira ideia é pertencente à responsabilidade moral, enquanto a última é uma noção metafísica que no fim destrói a responsabilidade moral. É triste ter que perguntar, mas alguém já leu um Molinista que tenha interagido como a noção de liberdade, que é a própria sede da responsabilidade moral? Por que a habilidade de escolher como se quer não é uma condição suficiente para responsabilidade moral? O Molinista nos diz por que a liberdade é insuficiente? Não, eles simplesmente ignoram a questão da liberdade e fazem afirmações brutas de que nós somos capazes de escolher contrário ao que nós queríamos, a fim de ser agentes moralmente responsáveis. O que é, afinal, ser capaz de escolher X, quando nós pretendemos escolher não-X? Se isto é uma caricatura da liberdade libertária, então [como] um Molinista explicará esta noção metafísica à luz do problema do regresso infinito que é inerente à noção?

Nota: aqui há várias confusões, talvez oriundas das muitas generalizações a esmo que faz o autor do artigo. Sutil, mas talvez inconsequentemente, o autor do artigo passa a questionar o “livre-arbítrio libertário” que, para alguns defensores do livre-arbítrio, é algo existente no Homem, como em Deus. Particularmente, discordo desta premissa, pois, parafraseando Agostinho, “se nasço escravo do pecado, e nasço, meu arbítrio não é tão livre assim”. De fato, o grande problema é a insistência desta ala reformada (principalmente os calvinistas modernos) de especularem as ações de Deus, seu pensamento, se “decreto”, seus propósitos, seu “projeto”, tudo “em função de….”, e aí normalmente eles apresentam-nos Deus como um ser qualquer, em termos filosóficos, ou seja, como se tudo o mais que viesse a caracterizar Deus (por exemplo, seus atos divinos) fossem categorias do ser divino, assim como os acidentes são categorias dos seres contingentes. Esta questão de “em função de…” (seu “ser”, por exemplo) é complicado quando aplicamos a Deus, pois não vejo nada em Deus que é “em função de….”. Os projetos de Deus são tão em função do ser divino, quanto o ser divino é função dos projetos de Deus. Explico: em Deus não há qualquer tipo de potencialidade. Deus é “ato puro”, como bem afirmou Tomás de Aquino. Em Deus, nada é a posteriori.

Os calvinistas (principalmente os mais modernos) admitem algo como uma “substância primária”, o Ser Divino, em função do qual tudo o mais é feito. É por isso que eles se sentem confortáveis com afirmações como essa: “O decreto divino é em função de sua natureza”. Esta CLARA e INEQUÍVOCA hierarquia categórica no ser de Deus não faz sentido algum. Deus decidiu sabendo, soube decidindo, escolheu (o que quis escolher) prevendo, previu escolhendo, e não somente isso: como ser ilimitado, Deus pensou tudo o que poderia ser pensado, em todas as nuances, concebendo todos os mundos possíveis e todos seus infinitos desdobramentos, EM UM ÚNICO MOMENTO, O MOMENTO “ETERNO”, haja vista que Deus não QUALQUER potencialidade. Sendo assim, o ato de Deus só pode ser considerado “perfeito” em todo e qualquer aspecto, justamente porque quaisquer outros atos seriam menos perfeitos do que o ato escolhido por Deus. Esta é a verdadeira beleza de levarmos a perfeição de Deus – ou seja, sua ilimitação – até às últimas consequências. Se Anselmo de Cantuária (1033-1109) estava certo, quando deu a forma do Argumento Ontológico da existência de Deus, no “Prologion”, ou seja, que “Deus é o ser acerca do qual nada de maior pode ser concebido”, e consigo conceber um Deus que é “maior” do que este “Deus”, cujas ações “são em função de seu ser”, então fico com Anselmo e com a concepção de um Deus que, ao meu ver, faz maus jus àquilo que está escrito, por exemplo, no Sl. 139, em Is. 9 e em Êx. 3: um Deus que se nos é apresentado como ILIMITADO e, portanto, PERFEITO. 
Insistente, deveríamos ver que a premissa menor, que “necessariamente, Deus conhece de antemão  X” é, de fato, verdadeira. Se a presciência de Deus sobre X não era necessária, então ela era contingente. Esqueça por um momento que os futuros contingentes – sendo verdadeiramente contingentes – desafiam os verdadeiros valores eternos com respeito ao seu resultado, (como os Teístas Abertos têm demonstrado. Nota: “demonstrado” não, “argumentado”). Qual a simples verdade de que todas as coisas eternas (Deus e seus pensamentos) devem ser necessárias? Afinal, Deus deliberou? Ele moveu-se do não-saber para o saber? Além disso, onde está fundamentado “X acontecerá” se não na determinação eterna de Deus? E caso contrário, o que significa determinar X sem determinar a causa de X? Será que causas contingentes determinam o decreto eterno de Deus, o que inclui a noção arminiana de “certezas contingentes”?
Uma terceira maneira de se livrar da falácia é utilizar fatos que estão gramaticalmente no passado [e] contemplá-los como no futuro. A progressão abaixo não toma atalhos, então pode parecer um pouco entediante, mas cada passo é apropriado.

Nota: observem o perigo do fatalismo, disfarçado da inferência de que “Deus conhece X” é a mesma coisa que “Necessariamente Deus conhece X” e que, portanto, implicam em “Logo, necessariamente X acontecerá”: Se Deus previu todos os atos pecaminosos, logo – por esta “lógica” fatalista e determinista – Deus os “determinou”. Assim, Deus determinou todos os atos, inclusive os pecaminosos, pois segundo o determinismo irrestrito, se Deus anteviu, de certa forma determinou. Como no determinismo irrestrito TUDO acontece em função do decreto divino, que por sua vez existe em função do ser divino, os deterministas não se preocupam muito com as implicações da causalidade, apelando para conceitos abstratos e complexos como “a soberana e inefável vontade e a sabedoria inalcançável de Deus”. É sabido em lógica que, quando a solução de determinado problema gera mais e maiores problemas e é mais complexa do que o problema em si, deve ser descartada como falsa.

As implicações ético-morais de se afirmar que “a necessidade do conhecimento divino é em função de seu ´decreto´” são enormes e, ao meu ver, insuperáveis. Simplesmente, é antibíblico afirmar que Deus “determinou os atos pecaminosos” dos homens, além do que, a ontologia divina, sob este prisma, torna-se completamente irreconhecível à luz das Escrituras. É mais fácil, coerente, lógico e principalmente bíblico falar que Deus sabe de todas as possibilidades e que, como pensou tudo o que poderia ser pensado, em quaisquer aspectos, sabe exatamente como criar um mundo (possível, isto é, este, o nosso mundo), no qual as ações humanas (em seu pouco spectro de possibilidade de livre-agência, por causa do pecado)  coincidam e existam em função de um projeto divino, no qual a vontade de Deus é plenamente satisfeita e jamais vituperada. Este mundo “possível” é o nosso, e não é à toa que podemos chamá-lo de “melhor mundo possível”, a exemplo de Leibniz (1646-1716). Mas, vamos aos próximos argumentos do determinista:

Estabelecer a necessidade de crença de Deus sobre a escolha de Tom (Nota: chamaremos de “Argumento 4″):
  1. 100 anos atrás, Deus sabia que Tom escolheria X amanhã
  2. Se X é crido no passado, então agora é necessário que X seja crido então.
  3. Então, agora é necessário que 100 anos atrás Deus acreditava que Tom fará X amanhã.
Nota: Tudo depende do que se inferiu a partir do “Argumento 4″. Sutil (ou inconsequentemente), o autor admite que “Deus sabia 100 anos atrás que Tom faria X amanhã” e, posteriormente, admite que “se X é ´crido´no passado, então agora é necessário que X seja ´crido´”, ou seja, “P →◘P” (lê-se “Se P, então necessariamente “P”). O problema é o mesmo já discutido, mas, para explicarmos ainda melhor o problema das premissas, coloquemos as mesmas com a notação lógica:

Assim ficaria o “Argumento 4″

1. P                 (Deus sabia que Tom escolheria amanhã, 100 anos atrás)

2. P → ◘P    (Se X é crido (ou “sabido”) no passado, então agora é necessário que X seja crido (ou “sabido”)).   

Logo, 

◘P                   (Agora, é necessário que 100 anos atrás Deus acreditava (ou “sabia”) que Tom fará amanhã).

Qual o problema? A verdade da premissa 2. Simplesmente não é verdade que, se Deus sabe de algo 100 anos atrás, então isto acontecerá necessariamente. Voltemos à questão dos mundos possíveis: Deus pode saber da possibilidade de algo (pois, tudo o que não é Deus, é possível, não necessário), o que implicará ou não no acontecimento de algo. A notação correta para expormos a presciência de Deus e a relação com os acontecimentos futuros seria, portanto:

1. P

2. P → (P V ¬P)  (Se, há 100 anos, Deus sabe de algo que vai acontecer amanhã [possivelmente], então ou acontecerá amanhã ou não acontecerá amanhã).

Logo,

P V ¬P                   (Algo acontecerá ou não acontecerá amanhã).

Vejam este exemplo bíblico: Deus chega-se a Moisés e, após mais um ato de rebeldia do povo de Israel no deserto, diz ao legislador e profeta que, dele, faria uma grande nação e extirparia todo o povo rebelde: “Disse o Senhor a Moisés: “Então o Senhor disse a Moisés: “Desça, porque o seu povo, que você tirou do Egito, corrompeu-se. Muito depressa se desviaram daquilo que lhes ordenei e fizeram um ídolo em forma de bezerro, curvaram-se diante dele, ofereceram-lhe sacrifícios, e disseram: ‘Eis aí, ó Israel, os seus deuses que tiraram vocês do Egito’ “. Tenho visto que este povo é um povo obstinado. Deixe-me agora, para que a minha ira se acenda contra eles, e eu os destrua. Depois farei de você uma grande nação”. Moisés, porém, suplicou ao Senhor, o seu Deus, clamando: “Ó Senhor, por que se acenderia a tua ira contra o teu povo, que tiraste do Egito com grande poder e forte mão? Por que diriam os egípcios: ‘Foi com intenção maligna que ele os libertou, para matá-los nos montes e bani-los da face da terra’? Arrepende-te do fogo da tua ira! Tem piedade, e não tragas este mal sobre o teu povo! Lembra-te dos teus servos Abraão, Isaque e Israel, aos quais juraste por ti mesmo: ‘Farei que os seus descendentes sejam numerosos como as estrelas do céu e lhes darei toda esta terra que lhes prometi, que será a sua herança para sempre’ “. E sucedeu que o Senhor arrependeu-se do mal que ameaçara trazer sobre o povo” Êxodo 32:1-14.


Havia uma possibilidade real de o povo ser destruído por Deus e recomeçar com Moisés, que era descendente de Abraão. A promessa, embora tardasse um pouco mais, seria cumprida, ou seja, a descendência de Abraão conquistaria a Terra. Mas, após a oração de Moisés, Deus tem misericórdia do povo (o que o autor sagrado descreve com o verbo “arrepender-se”) e não o destrói. Creio piamente que Deus revelou a Moisés que “se arrependera” de destruir o povo e que ouvira a oração o profeta, e foi justamente por isso que Moisés escreveu tal coisa no livro do Êxodo. Se só houvesse a possibilidade de o povo ser destruído, jamais Deus teria voltado atrás naquilo que propunha a Moisés (destruir o povo, pois seria ou um Deus não onisciente ou seria um Deus sádico e mentiroso, que propunha algo que Ele sabia que jamais aconteceria, o que é um absurdo. 

Estabelecer a necessidade da escolha de Tom, dada a necessidade da crença de Deus (Nota: chamaremos de “Argumento 5″):
  1.  Necessariamente, se 100 anos atrás, Deus sabia que Tom faria X amanhã, então Tom fará X amanhã.
  2. Se p (i.e, a crença histórica de Deus sobre a escolha de Tom) agora é necessária (3), também necessariamente se p, então q; então q (i.e, a escolha de Tom de X amanhã;[consequente de 4]) agora é necessário [transferido do princípio da necessidade].
  3. Então, agora é necessário que Tom fará X amanhã [3, 4 e 5]
Estabelecer que Tom não agiu livremente, dado a necessidade da escolha de Tom (Nota: chamaremos de “Argumento 6″).
  1. Se agora é necessário que Tom fará X amanhã, então Tom não pode fazer outra coisa.
  2. Então, Tom não pode fazer outra coisa que não X amanhã.
  3. Se [Tom] não pode fazer outra coisa, então [Tom] não age livremente.
  4. Então, quando Tom fizer X amanhã, ele não fará livremente.
Nota: como o leitor já deve ter percebido, o malabarismo lógico é justamente para se chegar à conclusão (n. 10), do “Argumento 6″, que curiosamente, o determinista afirma não ser fatalismo….. ué, então o que é?…. Rsrsrsrs.


Molinistas novamente aceitarão a validade do argumento, mas terão problemas com algumas premissas, ou seja, 5 e, possivelmente também 2. Com respeito a 2, um Molinista pode querer afirmar que a necessidade do passado não se aplica ao passado todo, mas isso é uma censura arbitrária. Um Molinista pode também objetar a premissa 5, onde uma mudança de modalidade ocorre segundo necessidades acidentais (necessidades sobre o passado) são mescladas com necessidades metafísicas que têm a ver com as ações de escolher. Isso, no entanto, representa um caso clássico de distinção sem diferença relevante. A objeção Molinista é a transferência do princípio da necessidade, ainda que eles permitam o mesmo princípio da lógica quando tratam com a validade do argumento 3. Realmente, suas objeções deveriam ser apenas às premissas 2 do argumento 4, mas eles estão preparados para argumentar que o passado é contingente e não necessário?
Dado a objeção de transferência do princípio da necessidade, a posição Molinista reduz-se a: a escolha de Tom de X necessariamente ocorrerá, mas contingentemente. O que significa X ocorrer necessariamente por meios contingentes? Em outras palavras, o que significa uma ocorrência necessária ocorrer contingentemente!? (novamente, “vontade=poder” para o Molinista).

Em suma, o lamento de Craig com o argumento 3 é que ninguém pode provar a necessidade do conhecimento de Deus. Se alguém puder provar a necessidade, então sou conduzido a crer por sua palavra que ele aceitaria a conclusão do argumento 3 acima, que afirma a natureza não-contingente da escolha. Consequentemente, o problema com Craig e seus discípulos durante a prova de 10-passos não deveria ser superior a qualquer alteração na modalidade no passo-5, desde que o mesmo tipo de mudança na modalidade ocorre no argumento 3 sem objeção! A objeção de Craig ao argumento 3 não é uma objeção de mudança de modalidade, mas sim, estritamente uma objeção metafísica pertencente à liberdade de Deus. Não tendo nenhuma objeção modal ali, os Craiguitas não deveriam encontrar nenhum argumento em 4 também. Consequentemente, Craig e seus discípulos deveriam ao menos começar a conceder que, com o tempo, o pré-conhecimento de Deus torna-se necessário (passo 3 – argumento 4), que os conduziriam a abraçar todos os argumentos válidos como sendo sólido dado que não há objeção modal para o argumento 3. Então, por que eles não fazem? Porque o assunto é ético, não intelectual. Essa é a razão. Deus ocultou dos Arminianos as gloriosas doutrinas da graça e é por isso que eles dizem coisas tais como “como Deus pode encontrar culpa, pois quem pode resistir à sua vontade?”. Temo que os Arminianos não reconheçam que Romanos 9 está falando a eles.[2]

Nota: bem, não sou “arminiano”, nem “craiguita” (rsrs), mas há muito do que discordar aqui. Em primeiro lugar, vejamos o que ele quer dizer com “passado necessário”. Segundo Aristóteles, o passado é necessário quanto a asserções de verdade – dada uma discutida tese de que, para Aristóteles, a verdade implica necessidade (ver DE MORAES, Lafayette. ALVES, Roberto Carlos Teixeira. A Modalidade a Respeito dos Contingentes Futuros em Aristóteles, De Interpretatione 9. Cognitio, São Paulo, v. 10, n. 2, p. 243-266, jul./dez. 2009. Neste artigo também se observa a forma completamente errada, segundo os autores, de “P → ◘P”). A “premissa 2 do argumento 4″, à qual se refere o autor no parágrafo retrasado, é justamente esta: “Se X é crido no passado, então agora é necessário que X seja crido” (ou, P → ◘P). A objeção para os que, como eu, afirmam que esta forma está completamente errada, é que, no caso de Deus, se Ele cria em X no passado, então este X deve ser crido necessariamente“. Mas aqui o autor comete um erro um tanto comum acerca do que é necessário. Não há um só tipo de necessidade: há a “necessidade lógica” e a “necessidade como operador modal”. Vejamos: “Sócrates é grego” e “os gregos são mortais”, logo, deve-se concluir necessariamente que “Sócrates é mortal”. Esta é a necessidade lógica. Isto é diferente de “Necessariamente, Sócrates é mortal”. Esta é a necessidade do operador modal. É fácil vermos a distinção com outro exemplo:

1. Todos os homens nascidos de mulher não são eternos.

2. Jesus nasceu de uma mulher.

Logo, 

3. Jesus não é eterno. 

É correto concluirmos, pelo argumento, ou seja, necessariamente, que “Jesus não é eterno”. Mas, como bem sabemos, Jesus é eterno. A necessidade lógica tem a ver como o argumento é construído. É completamente diferente de dizer que “Necessariamente, Jesus é eterno”. Vejamos esta outra construção:

1. Se o que acontecer amanhã às 11:00 é sabido, então é necessário que o que acontecer amanhã seja sabido. 

2. Há mil anos, Deus sabia o que acontecerá amanhã às 11:00.

Logo, 

È necessário que Deus saiba o há mil anos o que irá acontecer amanhã às 11:00. 

Forma lógica:

1. P → ◘P

2 P

Logo, 

◘P. 

A forma lógica está correta… mas, a forma do argumento NADA tem a dizer sobre a verdade das premissas do argumento. Com esta forma – que já vimos redundar numa conclusão falsa, porque uma premissa é absurda (a primeira) -, podemos dizer que “é necessário concluir necessariamente P“, mas isso não significa que o “necessariamente P” esteja certo!! Vejamos outro exemplo, só que absurdo:

1. Se eu quiser beber água, necessariamente beberei água. 

2. Eu quero beber água. 

Logo, 

3. Necessariamente, beberei água. 

Vejam, a forma lógica está correta. (1.P → Q, 2. P, logo 3. Q). Logicamente, está correto dizer, pela premissa 1, que se eu tiver a condição “quero beber água” (premissa 2), então eu “necessariamente, beberei água” (premissa 3). Mas, vejam que esse necessariamente está errado. Seu eu quiser beber água, mesmo assim posso beber um suco. E de onde vem o erro? Da falsidade da premissa 1 (P → ◘P). Esta premissa tem um operador modal mal colocado, o que a torna falsa. A conclusão será modalmente falsa. 

 


[2] A objeção ao Dr. Craig, bem como a crítica ao Arminianismo, em nada diminui as contribuições que ambos têm prestado ao Cristianismo, nem tampouco venho a considerá-los como “não-Cristãos”. Mantenho meu respeito e admiração pela irmão Dr. Craig e pelos irmãos Arminianos. As palavras do Dr. Cornelius Van Til são-me úteis e diretivas: “Somos gratos e nos alega o trabalho feito por arminianos no testemunho do evangelho. Alegres, por causa do fato de que, a despeito da inconsistência de sua apresentação o testemunho cristão, algo, com muita frequência, da verdade do evangelho brilha para os homens, e eles são salvos“(VAN TIL, Cornelius. O Pastor Reformado e o Pensamento Moderno. São Paulo: Cultura Cristã, 2010. p.55)[Nota do Tradutor]". 

Sei que a questão é complexa e exige um certo domínio de princípios de lógica. Mas, grosso modo, a verdade dos questionamentos ao posicionamento determinista apresentam barreiras intransponíveis, tanto no campo da teologia, quanto no da filosofia e no da lógica. Por estes e outros motivos, receio que, apesar do apelo piedoso e do fato de querer a todo custo salvaguardar a soberania divina em detrimento de qualquer ingerência humana, o pensamento determinista é errado, incoerente e não respeita a lógica, da qual ele mesmo procura valer-se. Há um ditado que diz: “Abandonamos aquilo que é bom, quando encontramos algo melhor”. O determinismo tem muitos aspectos bons, mas os que admitem uma resposta mais moderada encontraram um viés lógico, filosófico e teológico bem melhor. 

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