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terça-feira, 17 de março de 2015

O nome da coisa


Você já reparou que todo filme moderno de bruxas tem de colocar bruxas boas juntamente com as más? Percebeu não? Pois veja bem. Isto é tão certo quanto as caricaturas unânimes dos clérigos (católicos) de filmes sobre a Idade Média: todos representados como soberbos, materialistas, arrogantes, com uma aparência às vezes pior do que as bestas que os heróis tentam destruir. Percebeu não? Pois então veja bem.... Concomitantemente, a despeito de passar normalmente despercebida, uma forte tendência eclodiu em nossa sociedade com a força de um tambor de maracatu: a ideia de que o grotesco na verdade é "normal", e vice-versa. Quando você é forçado pelo peso da opinião pública a olhar um cara que coloca três chifres na testa, parte a língua e faz tatuagens nos olhos (isso, nos olhos) para "parecer com o diabo", a admitir aquele comportamento como "algo normal", então o "anormal" tem de ser uma coisa muito, muito estranha mesmo. 



Não se assuste com estas linhas. Na verdade, sei que chovo no molhado aqui, pois, hoje em dia, ninguém mais e assusta com nada (a não ser com o preço da gasolina). Num dia desses estive em um determinado hospital do Recife. Precisei falar com uma pessoa numa ala mais reservada e, quando cheguei próximo à mesma, pude notar que todos, exceto os enfermeiros e médicos, tratavam aquele lugar como deveria ser tratado: um local de respeito ante o sofrimento alheio. As piadas e palavrões saiam tão normal e frivolamente por parte daqueles profissionais, que, há um tempo, creio ter sido impensável que pudesse haver tamanho desleixe com a agonia alheia. A pornofonia, aliás, vinha embalada com as mais altas e belas risadas, o que a gente normalmente não vê nem nos mais engraçados números com palhaços de circo. Mas, sabe o que pareceu-me pior? Pelo que pude perceber, apenas eu estava realmente incomodado. A forma como as pessoas, pacientes ou não, lidavam com aquilo era algo da mais absoluta normalidade. De fato, sinto-me a cada dia mais anormal, pois o conceito de "normal" tornou-se tão elástico, que dá até medo de você dizer, nos nossos dias, que é uma pessoa "normal". 



Anormalidade, por sua vez, é o que não falta nos mais diversos círculos sociais. Vejamos o evangelical (cortemos na carne primeiro). A saramandaia que se tornou o movimento evangelical atual é tamanha, que fica difícil você definir o que é e o que não é "evangelical". Ao ver, segundo o sapientíssimo Olavo de Carvalho, o "falso merda" do Edir Macedo afirmar que "Deus fala com ele em sua banheira de ouro", no "Templo de Salomão", me pergunto se podemos alargar ainda mais as fronteiras do que chamamos de movimento evangelical. Isto porque, por outro lado, temos igrejas, nas quais os membros ainda brigam por suas posições nos bancos, para terem influência sobre 20 ou 30 pessoas, e muitos até se intrigam porque, apesar de seus anos neste modus vivendi, ainda não conseguiram perceber que o "deus" a quem dizem servir é, na verdade, nada mais do que uma expressão idealizada de si mesmos. A mão que veem e julgam lhes orientar é, de fato, a extensão de seus próprios braços. Seus cérebros estão programados para jamais perceberem tal coisa e, por mais que se lhes explique, o Cristianismo a que se reduziram é na verdade um esboço de religião mal feita: morrerão pensando que a "sua igreja" é a que Jesus fundou aqui, na terra. 



Mas, não são apenas os malogrados evangelicais de hoje apresentam-se ante o pano de fundo da nossa realidade. Temos os políticos, os artistas, as autoridades e os agentes do ensino. Estes, por sinal, não conseguem explicar - porque não conseguiram ainda entender - o porquê de, no Brasil, "artistas" terem a prerrogativa de dizerem quais "nortes" devemos tomar... E em todas as áreas! Se a violência está alta, falam os artistas. Se há mais mortes no trânsito, chamem os artistas. Se o preço da gasolina sobre, protestemos com os artistas. Deve ser porque os artistas conhecem melhor os problemas sócio-econômicos e geopolíticos do que os bocós daqueles centros de ensino, que chamamos de universidades. Apesar do trocadilho, registro que penso que muitos, senão a maioria, são uns verdadeiros bocós mesmo, enclausurados em seus centros de ensino, sem quaisquer "misturas" úteis e influentes com a sociedade que lhes cerca, a qual fenece mais burra dia após dia. 



Não? Então vá ser professor (universitário), pegue uma penca de provas de universitários que escrevem "menas", "derepente", "ósio", "mim passe...." e "ele estar bem".... Lide com isso diariamente, percebendo também que, ao mesmo tempo em que o "menas" torna-se onipresente, o alunado parece cada vez menos apto a esboçar um pensamento ao qual se diga "benza-te Deus", como diz minha mãe. Trabalhe com isso vários dias por semana e, depois, venha conversar comigo. Duvido que, estando em sã consciência, você não diga: "Meu amigo, tem algo acontecendo ao nosso redor!". E tem mesmo. Não é só a extensão espacial da coisa (em todo o Brasil e praticamente em todo o Ocidente), mas também sua extensão temporal. Desde quando este aparente emburrecimento generalizado está acontecendo? Quando li em uma reportagem (http://www.zh.clicrbs.com.br/rs/noticias/planeta-ciencia/noticia/2014/02/um-em-cada-quatro-americanos-nao-sabe-que-a-terra-gira-em-torno-do-sol-4422308.html) que um em cada quatro americanos não sabe que a Terra gira em torno do Sol, a sensação de que as minhas palavras acima expressam um sentimento verdadeiro deu lugar à certeza. E não culpe os Power Rangers, muito menos o Criacionismo, nem mesmo as novelas por isso: é um conjunto de fatores com implicações mais profundas e que só poderá ser compreendido se olharmos também o fator tempo



"Há tempos nem os santos têm ao certo a medida da maldade", cantava Renato Russo em uma época que ficou marcada, aqui no Brasil, como o fim da era do rock denúncia. Foi um fim triste e indigno do legado deixado por outros artistas, os quais outrora valia a pena ouvir... não só por ouvir, mas ouvir para pensar. Hoje, a música não é feita para pensar. Assim como o cinema normalmente não é feito trazer qualquer reflexão mais séria... e os artistas, que são os que mais sabem disso, aproveitam a onda "imbecilizacional" que varre nossa sociedade para figurarem como os que têm mais competência para falar exatamente daquilo que não sabem. Se não observou isso também, prezado internauta, observe como, nas entrevistas sobre o seu próprio trabalho artístico, os artistas levam tudo na mais absoluta brincadeira, só se tornando "sérios" quando não se trata do que mais sabem fazer: trabalhar com as artes. Tudo isso acontece hoje como num caldeirão de mudanças abruptas, desesperadamente ligeiras e, por incrível que pareça, com o aparente crivo da sociedade que não sabe que a cada dia sabe menos. 



Mas, afinal - você pode estar se peguntando e com razão, amigo(a) internauta -, o que raios tem a ver filmes de bruxas, enfermeiros pornofônicos num hospital (que pode ser qualquer um, inclusive aquele em que você eventualmente trabalhe...), evangelicais esquisitos, tatuados, transformistas perturbados e artistas aloprados? A princípio, nada. Não têm nada a ver. O que tem a ver é o tecido social que une a todos. Quando olhamos tais eventos em separado, estamos impossibilitados de ver o desenho do todo. E o todo não é bonito, amigo(a). É uma estampa feia, disforme, ilógica, mas não necessariamente abstrata. É simplesmente sem sentido. Ao visualizarmos o tecido que une todas estas estampas, percebemos que o todo é tão feio quanto as partes. Percebemos que construímos um tecido social frágil, que parece precisar reinventar modismos a todo instante para que esteja agregado, sem perceber que a cada mudança e avanço para trás que fazemos, descaraterizamo-nos quanto à nossa humanidade e damos um tapinha em nossas próprias costas, congratulando-nos por parecerermos e estarmos existindo mais como coisas do que como pessoas. As coisas (fatos, tendências e modus operandi sociais) formam uma única coisa, um todo que, ainda que gerando todo o tipo de esquizofrenias sob suas camadas, consegue transparecer ante as mesmas como algo absolutamente razoável, ético, sólido, reformador e transformador. E os que vivem justamente nestas camadas celebram sua percepção falha do todo, dada a grossa venda da cosmovisão alienante nos olhos. Louvam alegremente a liberdade de um stablishment que os aprisiona. Vivem a euforia do erro, quase como aquela que Adão deve muito provavelmente ter sentido quando, avidamente, comia do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal, haja vista que a Bíblia nos diz, em Gênesis, que, ao primeiro casal (Adão e Eva), a árvore era "agradável aos olhos e desejável para dar entendimento". Péssimo negócio fez o seu Adão. Acabou expulso com sua mulher do jardim de Deus.... e foi daí que começou toda a coisa



Pr. e prof. Artur Eduardo

2 comentários:

Neuza Rosevel Preta disse...

Chover no molhado? Chove não “viu!”
Acredite que seus textos e vídeos têm ajudado a desprogramar um cérebro limitado a Palavra de Deus. Norteando a difícil busca pelo caminho que nos leva a Ele.
Que texto iluminado para relatar o Sistema Social em que estamos inseridos. Completamente imersos como figuras “normais” ou como objetos não contidos no sistema, tornando-nos assim “anormais” aos dias que vivemos.
Gostaria, muito , da sua autorização para utilizar esse texto em sala de aula. Me sentiria gratificada ao perceber que os meus queridos alunos, muitos ainda na condição de bocós, passassem a ouvir para pensar e só posteriormente esboçassem pensamentos coerentes. E assim cada cidadão começaria a pintar uma nova estampa para esse desenho atualmente feio.
Certa de que sentirei as dificuldade necessárias na hora de passar na porta, agradeço a Deus por me permitir pessoas que me forcem desconstruir a imagem idealizada de si mesma que tão comumente nos é despejada.
Neuza Rosevel

Artur Eduardo disse...

Obrigado pelas gentis palavras, Neuza. Muito bom ver que há mais pessoas conscientes da "coisa" toda...rs. Tem autorização pra citar o txt. Abço

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