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sábado, 18 de outubro de 2008

O tempo e o futuro

DIÁRIO DE PENSAMENTOS FUTUROS



Por Olavo de Carvalho
Adaptado por Artur Eduardo

Nenhum diário é diário. O mais longo deles, em dezessete volumes, que Julien Green iniciou aos 26 anos e terminou aos 96, pula dias, semanas, meses. Não obstante, fica a intenção: documentar as impressões que passam, os pensamentos que talvez não voltem nunca mais. Green fazia isso porque, como Proust, tinha a obsessão do tempo que se esvai, mergulhando a cada instante no nada, à maneira das redondilhas,

“que quanto da vida passa
está recitando a morte”.

Se há um sentimento que nunca tive, é esse. Sou a menos proustiana das criaturas. Nunca tive saudades dos mortos, dos tempos idos, dos lugares vistos ou do que quer que fosse. Dou graças a Deus de que os anos não tragam mais a tal infância querida. Desde pequeno, tive indelevelmente a sensação de eternidade, a certeza de que tudo quanto é bom nesta vida está guardado no supratempo e não passa nunca. O que passa é o bagaço dos dias.

A imagem mais forte que me ficou dos primeiros anos -- eu tinha uns sete ou oito -- é a de uma cúpula de igreja, azul e branca, sem pinturas, com uma pomba que entrara por uma das altas janelas semi-abertas, esvoaçando entre suaves raios de sol. Posso estar maluco, mas asseguro que, não sei como, a pomba me sorria.

Nesse instante tudo o que viera antes se apagou, e muito do que viria depois. Que me importa, pois, a minha infância? Todas as infâncias nos aguardam na infância eterna do Menino Jesus. Daí minha pouca disposição de embalsamar o tempo. O único tempo de que tenho saudades é o tempo além do tempo, aquele do qual viemos e ao qual retornaremos, um dia, na esperança do perdão eterno.

No entanto, nem tudo o que se registra é para fins proustianos. Há impressões e idéias que devem ser registradas não porque passaram, mas precisamente porque não se passaram, porque se passaram incompletamente e não chegaram propriamente à existência. São vislumbres, pressentimentos, intuições em germe, mal esboçadas num limbo de sombras. Essas devem ser conservadas, não como monumentos do passado, mas como sementes de intelecções possíveis.

Desde há tempos tomei o hábito de guardá-las, e volta e meia a elas retorno, convocando-as a vir à luz. Quase tudo o que publiquei em livro ou expliquei em aula deriva dessas notas.

São o diário de meus pensamentos futuros.

Fonte: Olavo de Carvalho

NOTA: Quanto a mim, tenho saudades de acontecimentos do passado. Mais de eventos do que de pessoas pois, penso eu, os melhores momentos e amigos são os do presente... e os que me estão reservados, no futuro.

Em Cristo Jesus,
Pr. Artur Eduardo

Um comentário:

Alesson disse...

É, cada um tem uma visão.Acho importante relembrar acontecimentos positivos do passado, pois eles são a única certeza de que algo foi bom já que o futuro é sem dúvida incerto. Creio que o passado produz conforto.

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