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segunda-feira, 2 de maio de 2016

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sexta-feira, 29 de abril de 2016

Pesquisa recente sobre Escatologia revela: maioria dos pastores não acredita em "arrebatamento pré-tribulacional, mas crê no período literal do "Milênio"

A maioria dos pastores acredita que Jesus vai voltar no futuro. Mas poucos estão de acordo sobre os detalhes do Apocalipse. Um terço dos líderes evangélicos esperam que os cristãos sejam arrebatados, ou levados para o céu ao encontro de Jesus, antes que comece o período da Grande Tribulação. Cerca de metade deles acredita que um falso messias conhecido como o Anticristo aparecerá em algum momento no futuro.
Estas são algumas das conclusões de uma nova pesquisa sobe a teologia do fim dos tempos promovida pelo Instituto LifeWay Research. Os estudiosos ouviram mil pastores, das principais denominações, incluindo luteranos, metodistas, batistas, presbiterianos, assembleianos e outros pentecostais.
Segundo Scott McConnell, vice-presidente da LifeWay, as questões teológicas do final dos tempos continuam sendo assuntos populares entre os fiéis. “A maioria das pessoas querem que o seu pastor pregue sobre o livro do Apocalipse e o fim do mundo”, diz ele. “Mas essa é uma tarefa complicada. Os pastores e os estudiosos muitas vezes discordam sobre como os acontecimentos relativos ao fim irão se desenrolar”.
McConnell entende que não é algo totalmente ruim que os pastores discordem sobre os detalhes do Apocalipse. A maioria concorda com os principais ensinamentos sobre a Segunda Vinda. Para ele, os outros detalhes não afetam diretamente a vida cotidiana da maioria dos cristãos.
O foco da pesquisa abordou três aspectos principais:
O momento do arrebatamento (1 Tessalonicenses 4: 15-17 e Mateus 24)
A natureza do Anticristo (1 João e 2 João e outros textos)
O milênio, quando Jesus reinará por 1.000 anos (Apocalipse 20: 1-10)

Arrebatamento é assunto que mais divide opiniões

Cerca de um terço (36%) dos pastores acredita no pré-tribulacionismo, ou seja, o arrebatamento antes da Grande Tribulação. Nesse cenário, os cristãos verdadeiros não passam pelo período de turbulência onde os que ficaram na terra sofrem grandes problemas. Um quarto dos pastores (25%) acredita que o arrebatamento não é literal.
Ao mesmo tempo, dezoito por cento acham que o arrebatamento acontecerá depois da tribulação (18%). Uma minoria defende que o arrebatamento já aconteceu (1%), ou que irá ocorrer durante a tribulação (4%), ou antes da ira de Deus ser derramada sobre a terra (4%). Um grupo não concorda com nenhum destes pontos de vista (8%), ou não tem certeza sobre o que vai acontecer (4%).

A maioria espera o Anticristo, mas discorda sobre datas

Os pesquisadores também descobriram diversos pontos de vista conflitantes sobre o Anticristo. Cerca de metade dos pastores (49%) dizem que o Anticristo é uma figura humana que vai surgir no futuro. Outros dizem que não há um Anticristo (12%), mas seria apenas uma personificação do mal (14%), ou de uma instituição (7%). Seis por cento dizem que o Anticristo já esteve aqui.

Pré-milenismo é comum

Os pastores também discordam sobre os detalhes do reino milenar. Cerca de metade (48%) acreditam no pré-milenismo, visão de que um reino de Cristo por 1.000 anos acontece no futuro. Quase um terço (31%) defende o amilenismo, ideia de que não há um milênio literal, mas sim que Jesus já governa os corações e mentes dos cristãos.
Um em cada 10 (11%) acredita no pós-milenismo, perspectiva de que o mundo irá gradualmente tornar-se mais cristão, até que Jesus volte.
Fonte: GP

domingo, 27 de março de 2016

Quem são os "escolhidos" de Mateus 22:14? Discurso e analogias


A passagem "muitos são chamados, poucos os escolhidos" aparece no Evangelho de Mateus, em duas ocasiões distintas: em 20:16 e 22:14. Em ambas as passagens, as palavras são as mesmas: "Πολλοί. γάρ είσι κλητοί, όλiγοι δέ έκλεκτοί". Vejamos o contexto do texto de Mateus 22:14:

"De novo, entrou Jesus a falar por parábolas, dizendo-lhes: O reino dos céus é semelhante a um rei que celebrou as bodas de seu filho. Então, enviou os seus servos a chamar os convidados para as bodas; mas estes não quiseram vir. Enviou ainda outros servos, com esta ordem: Dizei aos convidados: Eis que já preparei o meu banquete; os meus bois e cevados já foram abatidos, e tudo está pronto; vinde para as bodas. Eles, porém, não se importaram e se foram, um para o seu campo, outro para o seu negócio; e os outros, agarrando os servos, os maltrataram e mataram. O rei ficou irado e, enviando as suas tropas, exterminou aqueles assassinos e lhes incendiou a cidade. Então, disse aos seus servos: Está pronta a festa, mas os convidados não eram dignos. Ide, pois, para as encruzilhadas dos caminhos e convidai para as bodas a quantos encontrardes. E, saindo aqueles servos pelas estradas, reuniram todos os que encontraram, maus e bons; e a sala do banquete ficou repleta de convidados. Entrando, porém, o rei para ver os que estavam à mesa, notou ali um homem que não trazia veste nupcial e perguntou-lhe: Amigo, como entraste aqui sem veste nupcial? E ele emudeceu. Então, ordenou o rei aos serventes: Amarrai-o de pés e mãos e lançai-o para fora, nas trevas; ali haverá choro e ranger de dentes. Porque muitos são chamados, mas poucos, escolhidos", (Mt. 22:1-14). 

A primeira coisa que nos salta aos olhos é a expressão: "Entrando, porém, o rei para ver os que estavam à mesa, notou ali um homem que não trazia veste nupcial e perguntou-lhe: Amigo, como entraste aqui sem veste nupcial? E ele emudeceu". É claro que, quando digo "primeira", levo em consideração que o leitor percebeu a livre ação dos que foram chamados às bodas do rei. Outro ponto interessante é a reunião de "maus e bons" à mesa do rei ("πονηρούς τε καί άγαθούς"). O homem, contudo, sem as vestes nupciais, foi aquele que seria lançado nas "trevas exteriores". Bem. A pergunta que não quer calar é: como se aplica a esta parábola a frase "muitos são chamados, poucos os escolhidos"? Ora, pelo contexto, "escolhidos" foram todos aqueles que, à mesa, estavam preparados. "Escolhidos", no texto, são os convidados que, mesmo sem muita intimidade com o rei, foram às bodas, após serem convidados. Ainda assim, havia alguém, entre os que foram que não estava devidamente preparado: o homem que não havia se trajado adequadamente para a festa.

Não podemos nos esquecer de que esta perícope retrata uma parábola. E, com as regras hermenêuticas acerca das parábolas, sabemos que há um ensino central e, possivelmente, outros secundários. Com certeza, o ensino central não é falar acerca da eleição incondicional, como pretendem alguns. Mas, longe disso, é mostrar como a preparação é importante para aqueles que ´ouvem´ o chamado do Rei. É inevitável que façamos uma analogia com a fé salvífica, resposta adequada ao chamado do Salvador que, indubitavelmente, é associado ao rei da parábola. Por que é importante fazermos associações, analogias? Porque esse é o intuito de tais discursos. Note que Jesus começa, nesta perícope, revelando como o Reino dos Céus é semelhante a...; isto é, a essência de qualquer parábola é um ensino análogo. Façamos outra analogia: imagine uma agência de trabalho. Faz-se uma seleção e 100 pessoas se classificam até àquela etapa. Contudo, só há 25 vagas. O responsável pela seleção diz aos 100 classificados que os primeiros 25 a chegarem no outro dia, antes das 08 horas, serão os contratados. 25 chegam e são contratados. Quem foram os "escolhidos" desta seleção? Obviamente que foram os 25, mas o foram porque chegaram antes. Associe este "chegar antes" a preparar-se adequadamente para as bodas do filho do rei: todos foram chamados, poucos foram escolhidos. Ora, se devo desenvolver uma fé que cresça, por exemplo, como cresce um grão de mostarda, então como ser autônomo que sou, devo canalizar minha fé - mediante a qual somos salvos, cf. Ef. 2:8-9 -, para que seja uma resposta devida ao Criador.


De fato, a parábola das bodas do filho do rei ilustra bem o que queremos defender aqui. Os "escolhidos" não são, em hipótese alguma, pessoas especiais, pessoas com quem "Deus estabeleceu de maneira inefável, inenarrável, indiscernível" um relacionamento "especial", em detrimento de todas as demais, que não são de fato o alvo de sua Graça salvadora. Esta ideia NÃO se encontra presente em textos como o de Mateus 22. Pelo contrário, há uma analogia em que se apresentam todas as fraquezas, deficiências e a ingratidão do sentimento humano em relação à ação do divino. Esta corrupção, digamos assim, inclina o Homem a afastar-se de Deus, mas não o impede de saber, de conhecer, de discernir o certo, que leva à vida, do errado, que leva à morte. Este discernimento é o ponto neuvrágico de vários textos bíblicos, inclusive naqueles em que a fé aparece como uma atribuição da racionalidade humana, isto é, da maravilhosa capacidade de o Homem crer:

"Isto, portanto, digo e no Senhor testifico que não mais andeis como também andam os gentios, na vaidade dos seus próprios pensamentos, obscurecidos de entendimento, alheios à vida de Deus por causa da ignorância em que vivem, pela dureza do seu coração, os quais, tendo-se tornado insensíveis, se entregaram à dissolução para, com avidez, cometerem toda sorte de impureza. Mas não foi assim que aprendestes a Cristo, se é que, de fato, o tendes ouvido e nele fostes instruídos, segundo é a verdade em Jesus, no sentido de que, quanto ao trato passado, vos despojeis do velho homem, que se corrompe segundo as concupiscências do engano, e vos renoveis no espírito do vosso entendimento, e vos revistais do novo homem, criado segundo Deus, em justiça e retidão procedentes da verdade", Ef. 4:17-24. 

Esta primeira série de ordenanças do texto paulino, que subjazem ante à realidade da "fé salvífica", renovadora, transformadora do Evangelho, ilustra bem a questão. Só homens e mulheres que creram, podem ouvir as "ordens", as prescrições do Ap. Paulo. Observe que, mesmo após crerem, suas prescrições lhes dizem respeito, e não apenas a uma ação do Espírito, que passa a operar após a decisão consciente de me deixar ser guiado, orientado por Ele.

"Digo, porém: andai no Espírito e jamais satisfareis à concupiscência da carne. Porque a carne milita contra o Espírito, e o Espírito, contra a carne, porque são opostos entre si; para que não façais o que, porventura, seja do vosso querer" Gálatas 5:16-17

Esta é a realidade da eleição: há um esforço, uma responsabilidade, um "chegar antes de 8" (como no exemplo acima), que deve ser satisfeito. Antes da conversão, é a fé. Depois, a santificação. E é nisto que consiste a Eleição de Deus. Aqui, JAMAIS encontra-se qualquer ideia de uma "salvação por obras", ou algo parecido. Mas o desenvolvimento natural do que a Bíblia nos revela, de fato, acerca do processo salvífico e de santificação de Deus. A maior alegria de um criador humano de robôs é a de ver sua criação tomando decisões autônomas. É claro que não igualo robôs autômatos a seres humanos, pois robôs jamais terão alma. Mas, ainda que guiados pelo determinismo físico das rígidas leis matemáticas e físicas de nosso universo, a ilusão de um "livre-arbítrio" entre máquinas autômatas é, sem dúvida, a maior realização para um gênio inventor de tais robôs.


Quando o Homem construir uma geração de robôs que simulem o cuidado, a especulação, o sentimento, a defesa do justo, do correto e ajam e falem como outros seres humanos, então este será, sem dúvidas, o ápice para a robótica. Não só porque se construíram máquinas autômatas, mas máquinas autômatas à nossa semelhança. E serão esses robôs, autômatos, e só estes e todos a partir destes, que a História, posteriormente, chamará de "escolhidos" pelos seres humanos como seus favoritos. A escolha, análoga à divina, não se dá por qualquer diferença em si, pois tanto robôs autômatos quanto não-autômatos continuarão sendo robôs. Mas, por uma qualidade que os distingue e que se aplica a quaisquer robôs autômatos. Todos serão eleitos pelo Homem. Todos serão a sua semelhança.

quarta-feira, 16 de março de 2016

23 de Abril: Dia de Reflexão Teológica e Apologética no IALTH


No dia 23 de Abril, o IALTH estará promovendo um grande encontro com os palestrantes que você vê aí acima. Você, que mora em Recife ou na RMR, não pode perder: Ciências, Filosofia, Músicas, Evangelismo, Apologética, Pastorado.... Um momento de reflexão que envolve vários aspectos do conhecimento e avanço teológico que temos experimentado na região, e tão úteis em momentos de avanço do ceticismo/liberalismo ao redor do planeta. 

PRÉ-VENDA: DIA 18 DE MARÇO (SEXTA-FEIRA).

Fones: (081) 98877-2110 (Jackson), (081) 98619-6033 (Karina), (081) 98796-2843 (Fátima), (081) 99106-2354 (Artur). 

sábado, 5 de março de 2016

Análise concisa da primeira parte da Carta aos Romanos (Caps. 1 ao 11)

O texto da Carta de Paulo aos ROMANOS (doravante chamada apenas de Romanos) é, sabidamente, dividido em 2: dos capítulos 1 ao 11, temos "a parte teórica", digamos assim. Dos capítulos 12 aos 16, a "parte prática". Aqui, neste breve ensaio, interessa-nos a parte 1. Não pretendemos, de forma alguma, fazer uma exposição exaustiva da primeira parte de Romanos. Muito menos fazer uma exegese comparativa das versões principais correntes, haja vista todas as implicações da Crítica Textual, que por si sós dariam um livro. Utilizaremos três versões bíblicas na língua portuguesa nesse ensaio: a) Revista e Corrigida 4a. Edição, presente p. ex. na "Bíblia Palavras-Chave", e b) Revista e Atualizada com Notas de Strong, da virtual Olive Tree Bible, que possui algumas diferenças com a última edição da RA impressa, mas nada que seja relevante; e, por fim, c) o Texto Bizantino, base do que conhecemos como "Textus Receptus". O texto bizantino utilizado aqui é também da Olive Tree Bible. 

Muito, mas muito mesmo, já foi dito sobre "Romanos", nestes dois mil anos de Cristianismo. Muitas e exaustivas análises. Aqui e acolá ouve-se falar de uma "tese" em Romanos, algo que seja a base da argumentação paulina. Muitos porém, no nosso entendimento, enveredaram mais intensamente às partes periféricas do texto paulino em Romanos, do que nas centrais. Talvez por causa do impacto que textos como o do capítulo 3 tiveram na história ocidental da Igreja, especificamente nas vidas de Agostinho e Lutero, pense-se que a ênfase principal da parte 1 da epístola, ou seja, a tese paulina, seja "uma defesa da justificação pela fé". Isto não está de todo equivocado, e aqui explico o que quero dizer. Com "equivocado", não quero dizer que há uma outra, mais importante tese em Romanos, pois entendo que a doutrina da justificação pela fé é importantíssima para o todo da carta, mas como "parte do centro", não como o centro inteiro. Segundo, sem as devidas conexões que Paulo faz, desde o início da carta, até o fim da parte 1, o capítulo 3 fica completamente desprovido da sua importância ante o todo, pois é neste, no todo, que Paulo apresenta e extensão de sua argumentação, através da qual revela o grandioso propósito daquela literatura. 

Denis Allan, em 2006, abordou o texto também defendendo uma "tese" em Romanos, a qual ele expõe no cap. 1, vs. 6: “Pois não me envergonho do evangelho, porque é o poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê, primeiro do judeu e também do grego". Como disse, defendo o pensamento de que Paulo tinha uma tese, mas não creio ser a apontada por Allan. Paulo escrevia suas cartas como discursos, pois elas eram lidas. Seguindo-se o plano retórico - discursivo, oral, não argumentativo ainda -, era muito importante para os antigos que tinham conhecimento da arte retórica, dispor o texto do discurso seguindo o padrão:

- Exórdio,
- Narração,
- Provas,
- Epílogo. 

Paulo apresenta uma "pré-tese", em Romanos 1:6, mas, como o assunto nestes cap. e vers. ainda fazem parte da introdução, defendo a ideia de que ele apresenta uma tese mais adiante, depois de ter exposto o problema UNIVERSAL do pecado, originalmente, e da providência salvífica de Deus, com abrangência não menor do que UNIVERSAL também. Contudo, no discurso antigo, é na narração, ou exposição dos fatos, que se apresenta uma tese num discurso antigo, e é no mesmo âmbito que se formam os argumentos para se defender tal tese. Foi isso o que fez o apóstolo dos gentios, quando elencou um "homem" ("judeu opositor", pois os judeus romanos são o destinatário principal da carta), com quem "combaterá" discursivamente (agora sim, argumentativamente) por toda a primeira parte (cf. 2:1-2). E, por que o "judeu" também estaria na mesma condição que o "grego"? Porque ambos são pecadores. O termo "grego", no nosso entendimento, personifica na carta a totalidade dos não-judeus ou gentios. Paulo termina, portanto, o Exórdio (Introdução) com a seguintes palavras:

"Se, porém, tu, que tens por sobrenome judeu, e repousas na lei, e te glorias em Deus; que conheces a sua vontade e aprovas as coisas excelentes, sendo instruído na lei; que estás persuadido de que és guia dos cegos, luz dos que se encontram em trevas, instrutor de ignorantes, mestre de crianças, tendo na lei a forma da sabedoria e da verdade; tu, pois, que ensinas a outrem, não te ensinas a ti mesmo? Tu, que pregas que não se deve furtar, furtas? Dizes que não se deve cometer adultério e o cometes? Abominas os ídolos e lhes roubas os templos? Tu, que te glorias na lei, desonras a Deus pela transgressão da lei? Pois, como está escrito, o nome de Deus é blasfemado entre os gentios por vossa causa. Porque a circuncisão tem valor se praticares a lei; se és, porém, transgressor da lei, a tua circuncisão já se tornou incircuncisão. Se, pois, a incircuncisão observa os preceitos da lei, não será ela, porventura, considerada como circuncisão? E, se aquele que é incircunciso por natureza cumpre a lei, certamente, ele te julgará a ti, que, não obstante a letra e a circuncisão, és transgressor da lei", Rm. 2:17-27.



É com essa cadeia de argumentos que Paulo desemboca na sua TESE, a partir da qual construirá toda a série de Narração e Provas presentes na parte 1 da Carta (lembrando que a parte 1, como dissemos, vai do cap. 1 ao 11). Outrossim, esta é a... 


Tese de Paulo em Romanos


"Porque não é judeu quem o é apenas exteriormente, nem é circuncisão a que é somente na carne. Porém judeu é aquele que o é interiormente, e circuncisão, a que é do coração, no espírito, não segundo a letra, e cujo louvor não procede dos homens, mas de Deus", Rm. 2:28-29.

O contraponto que ele faz em 3:1 e 3:9 não é muito bem compreendido, talvez, porque as traduções trazem a palavra "vantagem", em ambos os casos, com diferentes sentidos no grego. Em 3:1 ("Qual a ´vantagem´ do judeu?") há esta pergunta, cuja resposta é "muita, sob todos os aspectos". Mas, em 3:9, ("Que se conclui: temos nós qualquer ´vantagem´?"), a reposta é outra: "De jeito nenhum!". É óbvio, portanto, que Paulo não está utilizando a mesma expressão ou idéia. No segundo caso, Paulo refere-se ao judeu como raça e, aí, obviamente que não somente ao nível de povo, mas de indivíduos. Nada há de especial acerca dos judeus, pois "todos, tanto judeus quanto gregos, estão debaixo do pecado" (3:9b). Como defendo que a argumentação paulina também é essencialmente missiológica, o "resgate" do Homem pela obra expiatória de Jesus tomará cada vez mais vulto e, na verdade, será praticamente o principal ponto em várias das cartas do apóstolo dos gentios. 

Muita atenção se dá aos textos de Romanos 3:23 e 28. De fato, são textos cruciais, fundamentais... mas, só fazem sentido pleno ante a argumentação no todo. A ideia de que a fé é um ato superior à observância da Lei fica clara por sua consequência direta, ou seja, a pergunta retórica que Paulo faz, em Rm. 3:9: "É, porventura, Deus somente dos judeus? Não o é também dos gentios? Sim, também dos gentios" (Rm. 3:29a). Para reforçar a "ligação" do que diz, Paulo vale-se da pessoa de Abraão, talvez (fisicamente) o homem mais respeitado na cosmovisão judaica por ter sido o "pai" daquela nação, daquela etnia. E, ligar Abraão a um "gentio" não é apenas um sinal de ousadia literária, mas sobretudo de brilhantismo (e aí entra o fator inspiração!). A argumentação de Paulo é clara e inequívoca: Abraão foi "justificado" ANTES da Lei, aliás, ANTES mesmo da circuncisão (4:10). Portanto, o uso de Abraão como exemplo de um "incircunciso justificado por Deus" é forte argumento para a aplicação de que é "pela fé que somos justificados", o que o apóstolo expressara (em 3:28). 

Até este ponto, não digo nada que já não tenha sido exaustivamente discutido por séculos. Esta explicação visa, contudo, trazer a você, que lê este breve ensaio, os porquês de afirmarmos, no início, que a TESE de Paulo encontra-se em 2:28-29. Toda a argumentação paulina em Romanos redunda nesta ideia, além de servir de edifício argumentativo através do qual ele explicará a lógica da tese. Ao continuar sua argumentação, Paulo passa (cap. 5) a fazer uma comparação entre Adão e Jesus. Primeiro, ele provém da ideia de que todos pecaram: "Entretanto, reinou a morte desde Adão até Moisés, mesmo sobre aqueles que não pecaram à semelhança da transgressão de Adão, o qual prefigurava aquele que havia de vir". Uma coisa é certa, portanto: TODOS estão debaixo do pecado e de suas consequências. 



Adão, Jesus e a raça humana

Romanos 5:12-21 é um trecho importante nesta epístola. Nele, Paulo explica porque "todos pecaram": "Portanto, assim como por um só homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado, a morte, assim também a morte passou a todos os homens, porque todos pecaram" (vs. 12). Paulo já havia afirmado isto em 3:23. A questão lógica desta argumentação é relativamente simples de se destacar: por UM homem entrou o pecado no mundo (isto é, Adão), e por UM homem ele foi vencido (isto é, Jesus). Contudo, o trabalho salvífico de Jesus Cristo é superior, uma vez que vivificar é superior a mortificar. Adão trouxe morte, Cristo trouxe vida. Nesta condição, não há diferença alguma entre judeus e não-judeus, pois todos estão sob o pecado. O texto chave, porém, dessa passagem é a seguinte proposição paulina:

"Pois assim como, por uma só ofensa, veio o juízo sobre todos os homens para condenação, assim também, por um só ato de justiça, veio a graça sobre todos os homens para a justificação que dá vida" (5:18).

O princípio é evidente: RESTAURAR o equilíbrio. Não há a mínima dúvida de que a expressão "todos os homens...", em ambas as partes sublinhadas, mostra a natureza da expiação de Cristo ante o prejuízo do pecado de Adão. Paulo não está defendendo qualquer tipo de "universalismo" (salvação para todos, incondicionalmente), mas falando da abrangência dos atos do "tipo" (pré-figura do AT que representa uma figura no NT), que seria Adão e o pecado, com o "antitipo", isto é, aquele que é representado por Jesus. O fato crucial é que o salvação é, segundo a Escritura, oferecida a todos, pois todos fomos encerrados sob o poder do pecado. Este resultado é explicado por todo o capítulo 6, que consiste, inclusive, de numerosas exortações morais e espirituais acerca da importância da manutenção de uma vida de santidade e abandono das paixões efêmeras do mundo. E em 7:6, diz: "Agora, porém, libertados da lei, estamos mortos para aquilo a que estávamos sujeitos, de modo que servimos em novidade de espírito e não na caducidade da letra. Calvinistas gostam de usar Efésios 2:8-9 para afirmarem que "estávamos mortos em delitos e pecados", e nesta condição, "não temos como exercer o arbítrio". Mas, esta é mais uma prova de que "morto", nestes casos, é uma palavra figurada. O "morto" ao qual Paulo se refere é a condição de "separado", como sinônimo de "imundo", "pecador", "concupiscente". Esta condição, para o salvo, é impossível e, portanto, o mesmo deve estar "morto para o pecado". Não significa que não tenha condições de pecar, mas que sua condição espiritual é de "separação". Vamos adiante. 

A raça humana está preconizada nas palavras do Apóstolo Paulo, que ilustram bem a condição de guerra em que se encontra o homem: 

"Neste caso, quem faz isto já não sou eu, mas o pecado que habita em mim. Porque eu sei que em mim, isto é, na minha carne, não habita bem nenhum, pois o querer o bem está em mim; não, porém, o efetuá-lo. Porque não faço o bem que prefiro, mas o mal que não quero, esse faço. Mas, se eu faço o que não quero, já não sou eu quem o faz, e sim o pecado que habita em mim. Então, ao querer fazer o bem, encontro a lei de que o mal reside em mim. Porque, no tocante ao homem interior, tenho prazer na lei de Deus; mas vejo, nos meus membros, outra lei que, guerreando contra a lei da minha mente, me faz prisioneiro da lei do pecado que está nos meus membros" (7:17-23).

A parte destacada no texto acima é motivo de controvérsia. Alguns defendem que Paulo fez um relato, a partir de si, da condição do homem natural (e.g., um judeu não convertido ao Cristianismo). Outros defendem que aquela condição é ilustrativa, sim, mas refere-se exclusivamente aos que já professaram a Cristo, que ainda assim lutam contra a pecaminosidade. Bem, o fato é que Paulo nos fala de uma "luta", uma guerra que há entre a "lei da mente" - lit. "tô nomô tou noós mou", gr. transl. - "contra a lei da minha mente". Será sua consciência? Talvez seja essa a tradução mais aproximada de "noós" ou "nous", de onde vem a palavra "metanóia" ("arrependimento"). Seja como for, Paulo já havia dito, na mesma Carta, que Deus imprimira sua "lei" nos "corações" dos homens: 

"Quando, pois, os gentios, que não têm lei, procedem, por natureza, de conformidade com a lei, não tendo lei, servem eles de lei para si mesmos. Estes mostram a norma da lei gravada no seu coração, testemunhando-lhes também a consciência e os seus pensamentos, mutuamente acusando-se ou defendendo-se" (2:14-15).


Paulo, ainda Saulo, quando teve sua primeira experiência com Cristo, a caminho de Damasco (Síria). 

Aquela dualidade, sobra a qual falamos, é base para a argumentação secundária de Paulo, na qual ele explica (caps. 7 e 8) que o penhor da carne é nada, mas o do Espírito é vida (8:12-17). A questão sanguínea, portanto, dissolve-se ante o tremendo alcance do selo da fé. E, por que isto é tão importante para Paulo? Porque, lembramos, sua tese é:


""Porque não é judeu quem o é apenas exteriormente, nem é circuncisão a que é somente na carne. Porém judeu é aquele que o é interiormente, e circuncisão, a que é do coração, no espírito, não segundo a letra, e cujo louvor não procede dos homens, mas de Deus", Rm. 2:28-29.

E, sendo esta a sua tese, cabe ao Apóstolo demonstrar nas Escrituras que o alcance da promessa de Deus, no AT, cumpre-se no tempo da Graça de Deus e sua essência é muito maior do que imaginava o nacionalismo restritivo dos judeus. Ao invés de excluir, a promessa incluía, abarcava pessoas de quaisquer nações, povos e línguas, uma ideia que ainda era difícil de ser aceita pelos judeus nos dias de Paulo, inclusive na própria Igreja (vide At. 15). Para muitos a circuncisão era obrigatória, mesmo para os que criam em Cristo Jesus. Não só a circuncisão, mas a abstenção de certos tipos de comida, nos moldes do Levítico. Estas restrições caducaram com o "fim", a "plenitude" da Lei, que é Cristo. Paulo afirma expressamente: "Porque o fim da lei é Cristo, para justiça de todo aquele que crê" (10:4).

Romanos, caps. 8 e 9

É claro que os textos mais controversos de Romanos encontram-se nos capítulos 8 e 9, por causa de algumas palavras e ideias que ali estão. Defendo, contudo, que tais capítulos, a exemplo dos capítulos 6 e 7, são parte da argumentação paulina, não seu cerne. O que Paulo defende como uma tese, nesta carta-discurso (como eram suas cartas, à exceção das "pastorais"), é o texto de 2:28-29, por cujo propósito Paulo constrói toda a argumentação que vimos. As conclusões de sua argumentação são rigorosamente dedutivas e, quando indutivas, feitas com base em uma lógica plausível, verosímil, típica da retórica-homilética de seus dias. A certeza de que somos alvo da benevolência de Deus, no cap. 8, dá-se desde o início. "Agora, pois, nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus" (8:1). Toda a exaltação de Paulo a Deus, neste capítulo, está incutida nas palavras em que se lhe assegura a certeza, no Espírito, de estar cuidando dos seus. E é a partir da defesa desta ideia - de que Deus cuida dos seus -, que ele adentra naquela que é a parte mais "difícil" de sua carta, o final do cap. 8 e o cap. 9. Vejamos:

"Também o Espírito, semelhantemente, nos assiste em nossa fraqueza; porque não sabemos orar como convém, mas o mesmo Espírito intercede por nós sobremaneira, com gemidos inexprimíveis. E aquele que sonda os corações sabe qual é a mente do Espírito, porque segundo a vontade de De>us é que ele intercede pelos santos. Sabemos que todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito. Porquanto aos que de antemão conheceu, também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos. E aos que predestinou, a esses também chamou; e aos que chamou, a esses também justificou; e aos que justificou, a esses também glorificou" (8:26-30).

A expressão sublinhada acima é οϋς προέγνω (ous proegnô). Esta expressão também tem sido motivo de controvérsia, o que não deveria existir. Em 1 Pedro 1:2, há a expressão "segundo sua presciência" ("κατa πρόγνωσιν"), pois o substantivo é usado. O verbo, no texto de Romanos, coincide com o radical de 1 Pedro, que significa "conhecimento prévio". Este conhecimento prévio é a BASE dos desdobramentos seguintes, não o verbo "προώρισε" ("predestinou"), o qual é um desdobramento indutivo do ato divino de salvação. Este ato de Deus se dá numa esfera atemporal, ou seja, de sua perspectiva, pois nela Deus nos  "glorificou", ou seja, tudo para Deus já aconteceu, uma vez que, como ser infinito, não há tempo e espaço. A sequência de atos divinos que vemos em Romanos 8:28-30 é continuidade da ideia de que Deus se responsabiliza pelos seus, de que Ele sustenta, posto que o futuro dos fiéis é garantido: a vida eterna.

Deus: 
conheceu de antemão > predestinou > chamou > justificou > glorificou.

É esta certeza, esta segurança que está na mente do Apóstolo, pois, logo em seguida, como é de costume, Paulo pergunta (retoricamente) e afirma:

"Que diremos, pois, à vista destas coisas? Se Deus é por nós, quem será contra nós? Aquele que não poupou o seu próprio Filho, antes, por todos nós o entregou, porventura, não nos dará graciosamente com ele todas as coisas? Quem intentará acusação contra os eleitos de Deus? É Deus quem os justifica. Quem os condenará? É Cristo Jesus quem morreu ou, antes, quem ressuscitou, o qual está à direita de Deus e também intercede por nós. Quem nos separará do amor de Cristo? Será tribulação, ou angústia, ou perseguição, ou fome, ou nudez, ou perigo, ou espada? Como está escrito: Por amor de ti, somos entregues à morte o dia todo, fomos considerados como ovelhas para o matadouro. Em todas estas coisas, porém, somos mais que vencedores, por meio daquele que nos amou. Porque eu estou bem certo de que nem a morte, nem a vida, nem os anjos, nem os principados, nem as coisas do presente, nem do porvir, nem os poderes, nem a altura, nem a profundidade, nem qualquer outra criatura poderá separar-nos do amor de Deus, que está em Cristo Jesus, nosso Senhor". (8:31-39).

Exato! "Quem intentará acusação contra os ´eleitos´ de Deus? É Deus quem os justifica", afirma o apóstolo. É fácil entendermos o porquê de tanta confusão sobre textos como esse: enquanto, principalmente após a Modernidade, os cristãos (principalmente os calvinistas) tendem a dar uma grande ênfase à questão da "eleição" em si, o que se percebe no texto é uma argumentação jurídica, i.e., em defesa da ideia de que "ninguém pode intentar acusação contra os eleitos de Deus". Sejam quais forem, quem forem, onde estiverem, de onde tenham vindo... NADA poderá separá-los do amor de Deus, que está em Jesus Cristo. Esta é a ênfase correta do texto, não o aspecto da "eleição" em si, muito menos a "eleição incondicional", um desdobramento teológico e, ao nosso ver, equivocado do texto. Sem dúvidas Paulo fala de uma "eleição": indubitavelmente oriunda de seu pré-conhecimento. E esta "eleição" é segura, pois, segundo o Apóstolo, já estamos glorificados com Cristo, não tendo quem nos separe de seu amor. 



A questão, contudo, é: quem são os "eleitos" e como tal "eleição" se processa? 

A resposta não pode advir de elucubrações humanas, pois, como vimos, as perspectivas acerca do texto podem centrar pontos periféricos, o que não é correto hermeneuticamente. É a partir daí que seguimos rumos ao próximo capítulo, talvez o mais controverso de toda a epístola. Após um lamento por causa dos israelitas (9:1-5), os quais francamente rejeitaram a mensagem salvífica de Jesus Cristo, como bem sabemos, além do que, àquela época, ainda perseguiam os apóstolos de Cristo, Paulo volta à questão que julgamos central nesta primeira parte da Carta aos Romanos: que "judeu" ou "israelita" não são os da carne, mas os da promessa, como temos enfatizado em 2:28-29. No capítulo 9, vss. 6 ao 8, Paulo escreve:

"E não pensemos que a palavra de Deus haja falhado, porque nem todos os de Israel são, de fato, israelitas; nem por serem descendentes de Abraão são todos seus filhos; mas: Em Isaque será chamada a tua descendência. Isto é, estes filhos de Deus não são propriamente os da carne, mas devem ser considerados como descendência os filhos da promessa".

Pois bem, logo em seguida, Paulo dá um exemplo que, a princípio, pode parecer-nos que queira ensinar algo como uma "eleição incondicional para a salvação"; mas, repito, isto é uma leitura errônea, que ganha peso na Modernidade, principalmente após o calvinismo. A questão é mostrar que não é por mérito dos judeus - por obras - que os mesmos são salvos, mas "por aquele que chama", i.e., Deus. Está escrito:

"Porque a palavra da promessa é esta: Por esse tempo, virei, e Sara terá um filho. E não ela somente, mas também Rebeca, ao conceber de um só, Isaque, nosso pai. E ainda não eram os gêmeos nascidos, nem tinham praticado o bem ou o mal (para que o propósito de Deus, quanto à eleição, prevalecesse, não por obras, mas por aquele que chama), já fora dito a ela: O mais velho será servo do mais moço. Como está escrito: Amei Jacó, porém me aborreci de Esaú" (9:9-13).

Duas coisas precisam ser ditas aqui: a primeira é que "o propósito quanto à eleição" não deve ser entendido para a SALVAÇÃO ESPIRITUAL, mas para o plano de Deus QUANTO ÀS NAÇÕES QUE ESAÚ E JACÓ REPRESENTAVAM. É claro que houve/haverá, entendemos assim, descendentes de Esaú que foram e/ou serão salvos espiritualmente, como descendentes de Jacó que não foram/serão salvos. Isto é claro e está de acordo com o que Paulo destaca acerca do que fora dito à Rebeca: "...O mais velho será servo do mais moço". Isto é algo relativo às nações (israelita e induméia). A segunda diz respeito ao que vem logo a seguir. A frase "Como está escrito: Amei Jacó, porém me aborreci de Esaú" NÃO FOI PROFERIDA POR DEUS NO GÊNESIS, como muitos pensam, antes de ambos terem nascido, mas em Malaquias (c. de 440 a.C.), como parte de uma exortação que Deus faz aos israelitas:

"Sentença pronunciada pelo SENHOR contra Israel, por intermédio de Malaquias. Eu vos tenho amado, diz o SENHOR; mas vós dizeis: Em que nos tens amado? Não foi Esaú irmão de Jacó? -- disse o SENHOR; todavia, amei a Jacó, porém aborreci a Esaú; e fiz dos seus montes uma assolação e dei a sua herança aos chacais do deserto. Se Edom diz: Fomos destruídos, porém tornaremos a edificar as ruínas, então, diz o SENHOR dos Exércitos: Eles edificarão, mas eu destruirei; e Edom será chamado Terra-De-Perversidade e Povo-Contra-Quem-O-SENHOR-Está-Irado-Para-Sempre. Os vossos olhos o verão, e vós direis: Grande é o SENHOR também fora dos limites de Israel.
O filho honra o pai, e o servo, ao seu senhor. Se eu sou pai, onde está a minha honra? E, se eu sou senhor, onde está o respeito para comigo? — diz o SENHOR dos Exércitos a vós outros, ó sacerdotes que desprezais o meu nome. Vós dizeis: Em que desprezamos nós o teu nome?" (Ml. 1:1-6). 

Como um pai que protege seus filhos, Deus "aborrecera a Esaú", i.e., os indumeus ou edomitas, por causa de sua obsessão pela ruína de Israel, suas atrocidades com os israelitas e toda a crueldade com que trataram os judeus. Como um pai que ama, Deus amou seu "filho", Israel, protegendo-o do irmão, Esaú, que além de idólatra e perverso (falo do povo, não da pessoa), era inimigo de Israel. O uso metonímico (o todo pela parte), ou seja, os edomitas e israelenses sendo retratados por "Esaú" e "Jacó", respectivamente, é um recurso por demais utilizado nas páginas do AT. Mas, apesar de Deus proteger e guardar seu "filho" - a nação de Israel -, esta continuava "ingrata", com os homens desrespeitando preceitos da Lei, desprezando o próprio Deus e mais: sem reconhecerem que continuamente faziam o que era mal. 



Neste ponto, Paulo pergunta: "Que diremos pois? Há injustiça da parte de Deus? De modo nenhum!" (9:14). Os judeus, ou quem quer seja, poderiam pensar que estava havendo alguma injustiça da parte de Deus em meio àquele ato arbitrário. Mas, de fato, Deus compadece-se de quem quer, como está escrito (9:15). E é a partir daí que entramos na seção mais obscura de Romanos, a qual, se lida isoladamente, pode produzir um enorme efeito contrário àquele que se nos é produzido quando a lemos levando em consideração o contexto geral da parte 1 (caps. 1-11). Paulo levanta um hipótese em seu discurso escrito. Vejamos:

"Tu, porém, me dirás: De que se queixa ele ainda? Pois quem jamais resistiu à sua vontade? Quem és tu, ó homem, para discutires com Deus?! Porventura, pode o objeto perguntar a quem o fez: Por que me fizeste assim? Ou não tem o oleiro direito sobre a massa, para do mesmo barro fazer um vaso para honra e outro, para desonra? Que diremos, pois, se Deus, querendo mostrar a sua ira e dar a conhecer o seu poder, suportou com muita longanimidade os vasos de ira, preparados para a perdição, a fim de que também desse a conhecer as riquezas da sua glória em vasos de misericórdia, que para glória preparou de antemão, os quais somos nós, a quem também chamou, não só dentre os judeus, mas também dentre os gentios?" (9:19-24).

Primeiro, os seres humanos não são "objetos". A palavra "plasma", que foi traduzida por "objeto", seria um material de molde, como é o barro. Nenhum objeto pode perguntar ao oleiro "Por que me fizesse assim?", pois, se pudesse, perguntaria! A hipótese precisa ser bem lida: "SE Deus.... querendo mostrar a sua ira e dar a conhecer o seu poder, suportou com muita longanimidade os vasos de ira, preparados para a perdição...". "Vaso de desonra" é um vaso sanitário por exemplo. Uma parte qualquer do barro precisa ser "vaso sanitário", logo, alguém tem de ser. Mas, a questão aqui é: poderiam os judeus ser também tais vasos? A resposta é um sonoro "Sim", bem como "Sim" também seria a resposta à pergunta "Podem os gentios ser vasos de honra?". Houve, na História, pessoas que foram "preparadas" para fins específicos? Houve, sem dúvida. Faraó, Ciro, Judas, dentre outros. Esses homens foram "vasos de honra" ou "de desonra", conforme suas histórias. Olhemos o exemplo de Faraó, do Êxodo. Este foi um homem que, à certa altura, diz-nos a Bíblia que "Deus endureceu o coração de Faraó". Mas observe que o mesmo aconteceu para um fim específico, isto é, para a não libertação dos judeus, até que as pragas fossem derramadas no Egito. Deus poderia ter simplesmente matado Faraó logo no início, com a primeira praga, mas não é assim que funciona. É por isso que um texto como esse, de Romanos, deve ser visto no contexto da parte 1 da Carta: mais do que uma questão de "separar para a salvação/condenação" está o fato de que, nesta "separação" (que se dá para o fim, isto é, para o propósito a ser cumprido por aquele determinado "vaso"), inclui-se a questão de que os vasos destes propósitos não seguirão linhagens étnicas, sanguíneas, ou serão fruto de observação de preceitos (obras), mas exclusivamente da autoridade "daquele que chama", isto é, de Deus!

Podemos dizer que o rei Manassés foi um "vaso de desonra" por quase todo o tempo em que reinou em Judá. Foi idólatra, assassino, perverso, facínora. Eis o que a Bíblia diz acerca de Manassés:

"Eles, porém, não ouviram; e Manassés de tal modo os fez errar, que fizeram pior do que as nações que o SENHOR tinha destruído de diante dos filhos de Israel. (...) Além disso, Manassés derramou muitíssimo sangue inocente, até encher Jerusalém de um ao outro extremo, afora o seu pecado, com que fez pecar a Judá, praticando o que era mau perante o SENHOR" (2 Rs. 21:9, 16).




Sabemos que Manassés foi, durante boa parte de seu reinado (certamente, a maior parte do tempo), um idólatra assassino. Contudo, a Bíblia nos diz também sobre ele:

"Falou o SENHOR a Manassés e ao seu povo, porém não lhe deram ouvidos. Pelo que o SENHOR trouxe sobre eles os príncipes do exército do rei da Assíria, os quais prenderam Manassés com ganchos, amarraram-no com cadeias e o levaram à Babilônia. Ele, angustiado, suplicou deveras ao SENHOR, seu Deus, e muito se humilhou perante o Deus de seus pais; fez-lhe oração, e Deus se tornou favorável para com ele, atendeu-lhe a súplica e o fez voltar para Jerusalém, ao seu reino; então, reconheceu Manassés que o SENHOR era Deus. Depois disto, edificou o muro de fora da Cidade de Davi, ao ocidente de Giom, no vale, e à entrada da Porta do Peixe, abrangendo Ofel, e o levantou mui alto; também pôs chefes militares em todas as cidades fortificadas de Judá. Tirou da Casa do SENHOR os deuses estranhos e o ídolo, como também todos os altares que edificara no monte da Casa do SENHOR e em Jerusalém, e os lançou fora da cidade. Restaurou o altar do SENHOR, sacrificou sobre ele ofertas pacíficas e de ações de graças e ordenou a Judá que servisse ao SENHOR, Deus de Israel. Contudo, o povo ainda sacrificava nos altos, mas somente ao SENHOR, seu Deus. Quanto aos mais atos de Manassés, e à sua oração ao seu Deus, e às palavras dos videntes que lhe falaram no nome do SENHOR, Deus de Israel, eis que estão escritos na História dos Reis de Israel. A sua oração e como Deus se tornou favorável para com ele, todo o seu pecado, a sua transgressão e os lugares onde edificou altos e colocou postes-ídolos e imagens de escultura, antes que se humilhasse, eis que tudo está na História dos Videntes" (2 Cr. 33:10-19).

Afinal, Manassés foi um "vaso de honra" ou "de desonra"? E o ladrão da cruz, à direita de Jesus? (Lc. 23:43). E milhões e milhões de casos, de pessoas que honraram a Deus, por exemplo, durante toda a sua vida, mas apostataram em seus leitos de morte, como vice-versa, outros que foram grandes blasfemadores diante de Deus, mas se converteram em seus leitos de morte? A simples resposta de que são vasos de honra ou de desonra mediante sua condição ante a salvação é insuficiente perante o texto de Romanos 9, em questão! Pois os "vasos" sobre os quais Paulo fala, são aqueles "cujos usos" manifestaram para o que eram aqueles vasos: se para a honra, ou para a desonra. Concluímos, portanto, que quanto àquilo que Paulo fala acerca de vasos de honra ou desonra, refere-se a nações, povos ou mesmo grupos, ou ainda pessoas com fins (ações) específicas, diante das quais está Deus, que orquestra um plano infinitamente grandioso, mas que não é arbitrário em absoluto, pois não somos coisas. Voltemos ao exemplo do rei Manassés: para um judeu que teve um de seus filhos ou filhas mortos pelo sanguinário Manassés, que era devoto de Moloch, divindade cujo culto consistia em oferecer crianças recém-nascidas para serem queimadas vivas, Manassés (mesmo tendo se arrependido durante o fim de sua vida) fora "um vaso de honra", afinal? Ninguém em são juízo dirá que Manassés fora um "vaso de honra", desde sempre, por uma predestinação que não se explica, arbitrária, "inefável", indiscernível. Muito mais condizente com a História da Salvação, aliás, História em que se constrói o alvo principal da primeira parte da Carta aos Romanos, é perceber que Manassés tornou-se um "vaso de honra", pois durante muito tempo fora "vaso de desonra". E é por isso que devemos olhar o texto de Romanos 9 sob a luz do contexto de toda a primeira parte... que ainda não terminou!

O desfecho da primeira parte de Romanos: caps. 10 e 11!

Paulo termina o capítulo 9 da seguinte maneira:

"Que diremos, pois? Que os gentios, que não buscavam a justificação, vieram a alcançá-la, todavia, a que decorre da fé; e Israel, que buscava a lei de justiça, não chegou a atingir essa lei. Por quê? Porque não decorreu da fé, e sim como que das obras. Tropeçaram na pedra de tropeço, como está escrito: Eis que ponho em Sião uma pedra de tropeço e rocha de escândalo, e aquele que nela crê não será confundido" (9:30-33). 

Veja que os gentios alcançaram a justificação.... pela fé. Assim como os judeus não a alcançaram, pois imaginavam que a conseguiriam pelas obras. Ora, os judeus são "vasos de desonra"? Sim, mas não porque Deus assim determinara, pois Deus determinara que seriam quaisquer daqueles que não buscassem a justificação pela fé. Isso já estava explícito no capítulo 3, mas o ápice da argumentação paulina encontra-se no fim desta primeira parte. E é nela que percebemos plenamente o conceito aqui defendido. Assim Paulo começa o capítulo 10:

"Irmãos, a boa vontade do meu coração e a minha súplica a Deus a favor deles são para que sejam salvos. Porque lhes dou testemunho de que eles têm zelo por Deus, porém não com entendimento. Porquanto, desconhecendo a justiça de Deus e procurando estabelecer a sua própria, não se sujeitaram à que vem de Deus. Porque o fim da lei é Cristo, para justiça de todo aquele que crê" (10:1-4). 

Ora, um texto como esse não teria sentido algum se Paulo compreendesse a imutabilidade do estado de "vasos de honra" ou "de desonra". Quero dizer: se um vaso de honra o é desde a eternidade, num ocaso de predestinação irrestrita, quaisquer tentativas de se mudar isso cairiam num solipsismo, o qual nos levaria à loucura. Pensar sobre essa situação, nestes moldes, é quase impossível, a não ser para os que se consideram confortavelmente "vasos de honra", pois nas suas mentes estão salvos mesmo... mas, de fato estão? Bem, a lógica da evangelização e da conversão é justamente essa: fazer com que pessoas, normalmente fadadas à morte, à condenação, sejam transformadas. Vejamos o que diz o Apóstolo dos gentios:

"Ora, Moisés escreveu que o homem que praticar a justiça decorrente da lei viverá por ela. Mas a justiça decorrente da fé assim diz: Não perguntes em teu coração: Quem subirá ao céu?, isto é, para trazer do alto a Cristo; ou: Quem descerá ao abismo?, isto é, para levantar Cristo dentre os mortos. Porém que se diz? A palavra está perto de ti, na tua boca e no teu coração; isto é, a palavra da fé que pregamos. Se, com a tua boca, confessares Jesus como Senhor e, em teu coração, creres que Deus o ressuscitou dentre os mortos, serás salvo. Porque com o coração se crê para justiça e com a boca se confessa a respeito da salvação. Porquanto a Escritura diz: Todo aquele que nele crê não será confundido. Pois não há distinção entre judeu e grego, uma vez que o mesmo é o Senhor de todos, rico para com todos os que o invocam. Porque: Todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo. Como, porém, invocarão aquele em quem não creram? E como crerão naquele de quem nada ouviram? E como ouvirão, se não há quem pregue? E como pregarão, se não forem enviados? Como está escrito: Quão formosos são os pés dos que anunciam coisas boas!" (10:5-15). 

Paulo cita Deuteronômio 30. Em seguida, reproduziremos o texto de Dt. 30:10-18:

"Se deres ouvidos à voz do SENHOR, teu Deus, guardando os seus mandamentos e os seus estatutos, escritos neste Livro da Lei, se te converteres ao SENHOR, teu Deus, de todo o teu coração e de toda a tua alma. Porque este mandamento que, hoje, te ordeno não é demasiado difícil, nem está longe de ti. Não está nos céus, para dizeres: Quem subirá por nós aos céus, que no-lo traga e no-lo faça ouvir, para que o cumpramos? Nem está além do mar, para dizeres: Quem passará por nós além do mar que no-lo traga e no-lo faça ouvir, para que o cumpramos? Pois esta palavra está mui perto de ti, na tua boca e no teu coração, para a cumprires. Vê que proponho, hoje, a vida e o bem, a morte e o mal; se guardares o mandamento que hoje te ordeno, que ames o SENHOR, teu Deus, andes nos seus caminhos, e guardes os seus mandamentos, e os seus estatutos, e os seus juízos, então, viverás e te multiplicarás, e o SENHOR, teu Deus, te abençoará na terra à qual passas para possuí-la. Porém, se o teu coração se desviar, e não quiseres dar ouvidos, e fores seduzido, e te inclinares a outros deuses, e os servires, então, hoje, te declaro que, certamente, perecerás".



É muito peculiar que Paulo cite exatamente este texto, cujo contexto é de escolhas, de decisão. Alguns comentaristas afirmam que Paulo fora "voluntarista" até aí, ou seja, especificamente entre os capítulos 9 e 10 de Romanos. A arbitrariedade do voluntarismo, contudo, não permite que pensemos assim, haja vista que, dessa forma, faríamos de Deus o autor do Mal, o que é um absurdo. Mesmo os partidários calvinistas que defendem a idéia de uma "plano maior", "mais ético", cujos desdobramentos nós não sabemos, esquecem-se de explicar o seguinte ponto: como Deus pode ter decretado tudo - inclusive o Mal -, se este é imediatamente contrário à sua natureza, mesmo que seja necessário ante um plano inefável e superior? É claro que, com isso, não queremos dizer que o Homem está apto a compreender todas as nuances da natureza e propósitos divinos, mas também não queremos dizer que ele só está apto a nada conhecer. Se o reflexo da Justiça de Deus está em nossas consciências - como o Ap. Paulo afirmou que estava, no cap. 2 -, então este reflexo deve ser completo em sua limitação. Claro que não é todo, mas é completo na porção que é. E essa porção inclui a ideia de justiça, arbitrariedade, voluntarismo, parcialidade, etc. De modo algum, a criatura pode ser mais justa do que o Criador, e não falo isso apenas pela dificuldade de se entender os trechos acima, de Romanos 9, mas principalmente pelo nítido e claro paradoxo que a posição da predestinação irrestrita e incondicional teria com o claro ensino do oferecimento da expiação ilimitada:

"Isto é bom e aceitável diante de Deus, nosso Salvador, o qual deseja que todos os homens sejam salvos e cheguem ao pleno conhecimento da verdade" (1 Tm. 2:4). 

Como sabemos que não se resolve um problema, criando-se outro, reafirmamos que Paulo faz uso de uma hipótese, no texto do cap. 9, com o intuito de chegar ao capítulo 10. Observe a sequência que Paulo faz, das ações humanas (relativas à Igreja), essenciais no processo de levar a mensagem de salvação aos homens: "Como, porém, invocarão aquele em quem não creram? E como crerão naquele de quem nada ouviram? E como ouvirão, se não há quem pregue? E como pregarão, se não forem enviados? Como está escrito: Quão formosos são os pés dos que anunciam coisas boas!" (Rm. 10:14-15). Observe que a sequência enviar - pregar - ouvir - crer é decorrente da Igreja, ou seja, a ação humana em decorrência da obediência à Comissão divina e a aceitação dos que ouvem a mensagem e a recebem em seus corações. Ora, se todo o plano divino incluísse operações contingentes (temporais) provenientes de uma mera sucessão de causalidades já predestinadas, programadas, irrevogáveis, não haveria qualquer necessidade dessas perguntas, pois elas não me parecem mera formalidade retórica (perguntas retóricas apenas), mas uma sucessão correta de deduções que atestam a importância de os cristãos (talvez, àquela época, ainda majoritariamente judeus) irem aos gentios. 

Este pensamento, o da sucessão lógica de ações da Igreja e dos gentios (enviar - pregar - ouvir - crer) é reforçado pelo texto em Romanos que vem a seguir: 

"Mas nem todos obedeceram ao evangelho; pois Isaías diz: Senhor, quem acreditou na nossa pregação? E, assim, a fé vem pela pregação, e a pregação, pela palavra de Cristo. Mas pergunto: Porventura, não ouviram? Sim, por certo: Por toda a terra se fez ouvir a sua voz, e as suas palavras, até aos confins do mundo. Pergunto mais: Porventura, não terá chegado isso ao conhecimento de Israel? Moisés já dizia: Eu vos porei em ciúmes com um povo que não é nação, com gente insensata eu vos provocarei à ira. E Isaías a mais se atreve e diz: Fui achado pelos que não me procuravam, revelei-me aos que não perguntavam por mim. Quanto a Israel, porém, diz: Todo o dia estendi as mãos a um povo rebelde e contradizente" (Rm. 10:16-21).

Paulo lamenta por ter pregado a quem não ouviu. Ele cita Isaías (53) e essa ideia reforça sua oração por seus compatriotas, como ele dizia fazer (10:1). No que se refere à predestinação, não fica estranho Deus "estender as mãos todos os dias a um povo rebelde e contradizente"? Claro que sim. E isso reforça ainda mais a ideia de que não há paradoxo algum, isto é, não há duas ideias distintas sobrepondo-se uma à outra, mas uma única expressão da revelação de Deus que, suportada por exemplo atrás de exemplo, não cabe a ideia de uma eleição incondicional. Alguém, contudo, poderá replicar: "Mas, é necessário pregarmos, porque não sabemos quem foi eleito". E quando o caso é o próprio Deus? Sabe ele ou não quem ele mesmo supostamente elegeu incondicionalmente para a salvação ou para a perdição? O texto acima, de Romanos, destrói aquela réplica, assim como o seguinte:

"Jerusalém, Jerusalém, que matas os profetas e apedrejas os que te foram enviados! Quantas vezes quis eu reunir os teus filhos, como a galinha ajunta os seus pintinhos debaixo das asas, e vós não o quisestes!" (Mt. 23:37).

No capítulo 11, último da primeira parte de Romanos, como aconteceu nos caps. 9 e 10, Paulo parece confirmar a eleição condicional:

"Pergunto, pois: terá Deus, porventura, rejeitado o seu povo? De modo nenhum! Porque eu também sou israelita da descendência de Abraão, da tribo de Benjamim. Deus não rejeitou o seu povo, a quem de antemão conheceu. Ou não sabeis o que a Escritura refere a respeito de Elias, como insta perante Deus contra Israel, dizendo: Senhor, mataram os teus profetas, arrasaram os teus altares, e só eu fiquei, e procuram tirar-me a vida. Que lhe disse, porém, a resposta divina? Reservei para mim sete mil homens, que não dobraram os joelhos diante de Baal. Assim, pois, também agora, no tempo de hoje, sobrevive um remanescente segundo a eleição da graça. E, se é pela graça, já não é pelas obras; do contrário, a graça já não é graça. Que diremos, pois? O que Israel busca, isso não conseguiu; mas a eleição o alcançou; e os mais foram endurecidos, como está escrito: Deus lhes deu espírito de entorpecimento, olhos para não ver e ouvidos para não ouvir, até ao dia de hoje. E diz Davi: Torne-se-lhes a mesa em laço e armadilha, em tropeço e punição; escureçam-se-lhes os olhos, para que não vejam, e fiquem para sempre encurvadas as suas costas" (11:1-10).



Se há alguma dúvida sobre que tipo de "eleição" ao qual Paulo se refere - i.e., se coercitiva, compulsória, incondicional ou, por outro lado, sinérgica, mediante a fé que o indivíduo deve desenvolver -, tal dúvida esvai-se quando olhamos o texto em seguida:

"Pergunto, pois: porventura, tropeçaram para que caíssem? De modo nenhum! Mas, pela sua transgressão, veio a salvação aos gentios, para pô-los em ciúmes. Ora, se a transgressão deles redundou em riqueza para o mundo, e o seu abatimento, em riqueza para os gentios, quanto mais a sua plenitude! Dirijo-me a vós outros, que sois gentios! Visto, pois, que eu sou apóstolo dos gentios, glorifico o meu ministério, para ver se, de algum modo, posso incitar à emulação os do meu povo e salvar alguns deles. Porque, se o fato de terem sido eles rejeitados trouxe reconciliação ao mundo, que será o seu restabelecimento, senão vida dentre os mortos? E, se forem santas as primícias da massa, igualmente o será a sua totalidade; se for santa a raiz, também os ramos o serão. Se, porém, alguns dos ramos foram quebrados, e tu, sendo oliveira brava, foste enxertado em meio deles e te tornaste participante da raiz e da seiva da oliveira, não te glories contra os ramos; porém, se te gloriares, sabe que não és tu que sustentas a raiz, mas a raiz, a ti. Dirás, pois: Alguns ramos foram quebrados, para que eu fosse enxertado. Bem! Pela sua incredulidade, foram quebrados; tu, porém, mediante a fé, estás firme. Não te ensoberbeças, mas teme. Porque, se Deus não poupou os ramos naturais, também não te poupará. Considerai, pois, a bondade e a severidade de Deus: para com os que caíram, severidade; mas, para contigo, a bondade de Deus, se nela permaneceres; doutra sorte, também tu serás cortado. Eles também, se não permanecerem na incredulidade, serão enxertados; pois Deus é poderoso para os enxertar de novo. Pois, se foste cortado da que, por natureza, era oliveira brava e, contra a natureza, enxertado em boa oliveira, quanto mais não serão enxertados na sua própria oliveira aqueles que são ramos naturais!" (11:11-24).

E aqui, antes do desfecho desta profunda primeira parte de Romanos, expõe-se novamente a tese de Paulo, de que "judeu é aquele que o é no interior". Este "retorno" ou "recapitulação" se dá pelo exemplo dos ramos e da raiz da oliveira: quem não é natural da oliveira (os gentios, a quem Paulo dirige esta seção de Romanos), é "enxertado" na oliveira, e não deve se esquecer da herança que recebeu, oriunda do povo judeu. Herança que está, inclusive, na própria Escritura vétero-testamentária. Aqui, a ideia de "tornar-se" algo novo vem mais uma vez à tona. Assim como dissemos que o sentido "vasos de honra e desonra", muito mais do que um estabelecimento imutável da eternidade, pareceu-nos a condição de estar diante de Deus, condição que pelo próprio nome implica numa possível mudança (quem era pode deixar de ser, e quem não é pode vir a ser): os ramos da oliveira podem ser "enxertados" ou "cortados", inclusive os que já foram outrora "enxertados" ou "cortados" uma vez. E como fica a "eleição"? Para que tenha sentido pleno, a ideia de "eleição" só pode funcionar, sem paradoxos, se vista coletivamente. A eleição, sob uma perspectiva histórica, global, étnica, faz mais sentido, pois Deus quer a salvação de todos os homens, conforme nos dizem as Escrituras. Concluímos também que é por esse motivo que Paulo fala "eleição da graça". Não é simplesmente um ato inefável, misterioso, indiscernível e paradoxal de escolher compulsoriamente alguns para a salvação, separando outros também compulsoriamente para a condenação eterna, mas considerar a graça para todos, recebida por aqueles que vierem a "ouvir", afinal "a fé vem pelo(a) ouvir/pregação (gr., "akons") e o ouvir/pregação (d)a Palavra".

Após a explicação de que, a partir da desobediência de Israel, veio a salvação para os gentios (11:25), Paulo explica que após o tempo certo, o momento certo dos gentios, a "plenitude dos gentios" (gr., "πλήρωμα τών έθνών"), Israel será salvo. Vários intérpretes, principalmente antes de 1948, sequer viam uma restauração física para Israel, muito menos espiritual. Este foi o caso, por exemplo, de Louis Berkhoff, que afirmou em sua Teologia Sistemática que "não via quaisquer sinais de Israel voltando a ser uma nação". Contudo, outros intérpretes insistiam que um primeiro sinal da salvação espiritual de Israel seria sua restauração nacional e, desde então, os judeus têm sido alvo do mundo, dadas as tensões com os povos árabes e palestino. Seja como for, parece-nos que restauração de Israel dar-se-ia como a História mostrou, com uma primeira etapa, física, e outra, espiritual. Homens e mulheres judeus, de várias realidades diferentes, são partícipes desta promessa, assim como gentios. Mas, quais judeus e quais gentios? Podemos dizer que, em termos de abrangência, a salvação tem que alcance? A última linha argumentativa de Paulo, na primeira parte da Carta aos Romanos, nos responde:

"Συνέκλfισε γιΧρ δ Θεος τοUς πάvτας είς άπείθειαν 'ίνα τού πάντας έλεήστι" ("Porque Deus a todos encerrou na desobediência, a fim de usar de misericórdia para com todos"), 11:32.



Como não poderia deixar de ser, termino este conciso texto acerca da primeira parte da Carta aos Romanos com o último texto da mesma. Faço minhas as palavras do Apóstolo dos gentios:


"Ó profundidade da riqueza, tanto da sabedoria como do conhecimento de Deus! Quão insondáveis são os seus juízos, e quão inescrutáveis, os seus caminhos! Quem, pois, conheceu a mente do Senhor? Ou quem foi o seu conselheiro? Ou quem primeiro deu a ele para que lhe venha a ser restituído? Porque dele, e por meio dele, e para ele são todas as coisas. A ele, pois, a glória eternamente. Amém!" (11:33-36).

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

Uma Réplica em Defesa do Livro "Sob os Céus da Escócia" - Por Renato Cunha

Há alguns dias, o rev. Alan Renê de Lima escreveu um post (aqui) em seu blog, intitulado "Cristão Reformado", com o seguinte título: "Seria a Confissão de Westminster um Documento Continuísta? Uma Avaliação Crítica de ´Sob os Céus da Escócia´ de Renato Cunha - Parte 1". O bp. Renato Cunha, autor do livro criticado, escreveu uma réplica aos comentários de Alan Renê e solicitou que a mesma fosse publicada no blog "Fatos em Foco". Reproduzimos o texto de Renato Cunha, na íntegra. Endossamos que confiamos na ação do Espírito Santo agindo "como lhe apraz", distribuindo dons, pois "o Espírito é o Senhor", conforme nos diz o Ap. Paulo (2 Co. 3:17), e nada há na Escritura que expressamente afirme terem cessados os chamados "dons espirituais", posto que a ação sobrenatural de Deus é livre e, ao contrário do que dizem os cessacionistas, é expressa na Escritura. 



Uma réplica em defesa de "Sob os céus da Escócia".

Por Renato Cunha.


O tão anunciado artigo sobre o livro “Sob os céus da Escócia (2015)” da lavra do Rev. Alan Renê de Lima foi finalmente publicado. Em primeiro lugar, analisando particularmente seu conteúdo, tive a impressão (isso só percebe quem conhece o livro) que o articulista leu a obra, mas não entendeu sua proposta. Além do mais, que ele não tenha gostado do livro isso restou claramente evidenciado e é até um direito que lhe assiste. Por outro lado, e com máxima distinção, igualmente evidente que não o entendeu. Todavia, como ele se esforça para descredibilizar o livro, sobretudo no tocante às fontes, julgo ser interessante logo de início tecer algumas considerações a respeito. Portanto, afirmações equivocadas de menor gravidade, como minha qualificação como ministro da Igreja Episcopal Carismática, serão deixadas de lado.

O articulista parece estranhar não apenas as fontes, mas igualmente os eventos envolvendo profecia preditiva, curas e ressureições informados no livro. Com efeito, todos os relatos carreados em Sob os céus da Escócia, são registros históricos extraídos de fontes reformadas e calvinistas, escritas por autores igualmente reformados e calvinistas. Gente séria que angariou reputação ilibadíssima, tais como John Howie, Theodore Beza, Robert Fleming, London Gardner, Patrick Hamilton, Peter Hume Brown, Patryck Walker, Alexander Smellie, et al. Todavia o articulista manifesta seu inconformismo talvez porque tais relatos confrontem sua posição teológica. As fontes das quais me utilizo, foram utilizadas pelos Drs. Lloyd-Jones, bem como pelo Dr. Ian Murray em The Puritan Hope (Banner of Truth, 1971) e outros tantos escritores reformados. O uso de tais relatos não ficou restrito aos séculos 16, 17 e 18. Em um de seus livros, Lloyd-Jones diz que

houve um homem chamado John Welsh que era tão reformado e tão calvinista como seu sogro, John Knox. Foi dito dele - e há boa prova disso num livro escrito por um escritor igualmente reformado e calvinista - que, quando ele residia no sul da França, foi usado para ressuscitar uma mulher dentre os mortos. [...] Ou considerando o dom de profecia, façamos uso da ilustração. Tome de novo o caso de John Welsh, ou de outro grande ministro da Escócia, Alexandre Peden. Se vocês lerem as biografias desses homens, verão que eles puderam proferir profecias de eventos que aconteceriam na Escócia - e que de fato aconteceram.[1]

A diferença substancial entre os apontamentos do Dr. Lloyd-Jones e os apresentados em Sob os céus da Escócia é que dou nome aos protagonistas, enquanto Jones apenas menciona fatos. Ele fala da ressureição, enquanto eu, informo ao leitor outros dados históricos como detalhes que o envolvem, à semelhança da ressurreição do Lorde Ochiltree, pelas mãos de Welsh.[2] Dou vida e precisão histórica aos relatos citando profecias nos ministérios de John Welsh, John Knox, George Wishart, Alexander Peden, John Davidson, Richard Cameron, Robert Bruce e John Semple. São indubitavelmente oito respeitáveis ministros. Não há na minha lista nenhum louco ou fanático. Todos homens que amavam a Palavra e pregavam-na com todo ardor. Contudo, profetizaram coisas impressionantes, incluindo detalhes sobre as mortes de determinadas pessoas incluindo detalhes sobre as mortes de determinadas pessoas com aquela precisão cirúrgica que chega a causar assombro.

Além do mais, quando isso foi possível, fiz uso de mais de uma fonte. Tome como exemplo o relato sobre uma ocorrência de profecia com João Calvino registrada por Beza e que foi publicada na biografia do principal reformador em Genebra. Além de apontar o registro de Thomas Boys (1832), informo ao leitor que o mesmo relato se encontra na obra de London Gardner (1744), bem como numa tradução do latim para o inglês publicada em 1844 pela Calvin Translation Society. Foi a partir desse tipo de obra altamente qualificada que pesquisamos. Contudo, o articulista tem insistido “ad nauseam”, em atacar a credibilidade afirmando categoricamente que o livro é mal pesquisado. O que não é verdade.
O articulista teve dificuldade para localizar fontes e protesta logo de início que a confusão se dá por uma suposta imperícia minha em alocar as referências seguindo rigor das normas científicas:

“Um exemplo disso pode ser percebido no fato de que, ao tratar do alegado continuísmo do escocês George Gillespie nenhuma fonte primária é apresentada, com exceção da menção a dois tratados sobre o dom de profecia no Novo Testamento (p. 65, nota de rodapé nº 15). Não há nenhuma declaração do próprio Gillespie. Há apenas testemunhos oriundos de biografias. Na verdade, as únicas palavras de Gillespie documentadas (p. 64) são tomadas a partir de uma fonte secundária difícil de identificar, dada a maneira equivocada como as notas de rodapé estão organizadas do ponto de vista da metodologia da pesquisa científica.

Quanto ao protesto acima, explico. As referências de nº 13 e 15, estão jungidas à 33 que na página 58 menciona a obra sobre a qual eu extraio as citações de Gillespie. É verdade de fato que Gillespie faz um apanhado de trabalhos inclusive da Patrística tais como Crisóstomo, mas o faz afirmando claramente que tais testemunhos são tomados como sua posição particular e conclui dizendo que ele próprio testemunhara ocorrências proféticas em seus dias:

“E agora, tendo ocasião, eu tenho que dizer isto, para a glória de Deus, havia na Igreja da Escócia, antes do tempo da nossa primeira Reforma e depois da Reforma, em ambas as ocasiões tais homens extraordinários, superiores a simples pastores e mestres, nivelados aos santos profetas recebendo revelações extraordinárias de Deus e predizendo diversas coisas incomuns e acontecimentos notáveis, as quais aconteciam promovendo grande admiração em todos aqueles que os conheciam em particular.”( p. 64, nota 13).


A propósito, a nota de rodapé de número 15 na página 65, tão somente descreve o título dos ensaios sobre a matéria escritos por Gillespie em Treatise of Miscelany Questions, parte de Works of George Gillespie – One of the Commissioners from Scotland to the Westminster Assembly. Contudo, tais ensaios são mencionados apenas como informação complementar. Caso o leitor deseje averiguar e pesquisar mais acuradamente. Eu lançarei mão deles no volume 2. Sobre a obra mencionada acima, a edição que tenho é um reprint do original de 1644 e publicado pela Still Waters em 1991. A propósito, tal citação é extraída da obra adrede mencionada especificamente da pág. 30 de Treatise of Miscelany Questions. Seria esta fonte marginal ou sem credibilidade? O esforço do articulista demonstra-se mais como o desejo de confundir a mente do leitor, do que propriamente auxiliá-lo.

Ele também me acusa de ter afirmado o viés continuísta da CFW, quando em nenhuma das páginas do livro o tenha feito. Nem tampouco afirmei categoricamente que qualquer dos puritanos citados fosse continuísta. Disse que a CFW é um documento redigido com caráter conciliatório. Segundo eu o Dr. Milne entendemos, sua concepção se presta à articulação com fins políticos de pacificação, necessária em um cenário religioso, civil e político bastante conturbado. Neste sentido, não importa o que cada puritano em particular escreveu em defesa de um cessacionismo específico ou de um continuísmo incipiente. Importa é que o enunciado da Confissão apenas se opõe tacitamente quanto à possibilidade de novas revelações com força de mandamentos universais para a Igreja. Este propósito da profecia, sustento no livro, cessou. A que permanece em nossos dias, também sustento no livro, é de caráter extraordinário. Assim sendo, eu não consigo entender que o articulista tenha interpretado como completo revisionismo histórico o simples apontamento através da história da mentalidades quanto ao surgimento do cessacionismo atual como uma excrescência teológica.

Por conseguinte, para quem alega possuir credenciais acadêmicas e treinamento teológico formal, o articulista se autodenuncia quando não compreende evidências muitos simples, que podem ser deduzidas facilmente com uma leitura cuidadosa. Tome o exemplo quando ele diz que eu não me preocupo em apresentar uma definição sobre qual seja o cessacionismo confrontado na obra, e me acusa de atacar tão somente o sistema quando lhe associo ao ateísmo bem como ao liberalismo de Bultmann. No entanto, eu apenas usei a mesma “régua” utilizada por MacArthur quando este mediu o continuísmo – sem conceitua-lo devidamente, diga-se de passagem. “Com a medida que medirdes, vos medirão também”, disse nosso Senhor. Pois bem, no livro Os Carismáticos (Fiel, 1995), MacArthur a certa altura na página 61 defende a ideia de que a teologia que “possa resultar de nossa experiência não é originária do movimento carismático. Ironicamente, diversos elementos, todos anti-cristãos, têm contribuído para que esse conceito de teologia experimental cresça: Existencialismo, Humanismo e Paganismo.”. Então o continuísmo pode ser acusado injustamente de possuir raízes no paganismo, enquanto o cessacionismo não pode sê-lo por irmanar-se a pressupostos anti-sobrenaturalistas ateístas ou liberais? Se MacArthur pode proceder como demonstrado em julgamento particular, seus opositores podem fazê-lo ao refutar o tipo de cessacionismo que ele abraça. Por outro lado, está tão claro que eu trabalho o cessacionismo mais vulgarmente conhecido e divulgado aqui no Brasil, que julguei desnecessário expor os detalhes das variações próprias do sistema. Ora, se na obra eu dialogo com as teses de cessacionistas tais como Richard Gaffin (p.175ss), Sinclair Ferguson (p. 196), Brian Schwertley (p.184), MacArthur (p. 157ss), Palmer Robertson (p.171), eu realmente necessito esclarecer contra qual cessacionismo me insurjo?

Ele também afirma que eu sustento alegação de que George Gillespie era continuísta. Por outro lado, há uma afirmação muito clara carreada no livro que não foi transcrita no artigo, onde digo:

Ainda que não seja provada sua aliança com o continuísmo, Gillespie se rendeu aos fatos e os explicou da única forma que poderia tê-los explicado: afirmando que, tendo sido encerrado o cânon bíblico, Deus falou extraordinariamente através de instrumentos humanos, revelando fatos impressionantes que se cumpriram para espanto de toda nação escocesa” (p.65). [grifo meu]

Onde estaria minha alegação de que Gillespie era continuísta? O articulista poderia ter transcrito algum trecho do livro com a dita alegação, o que não ocorreu. Não satisfeito, afirma que além de Gillespie, rotulei Calvino, Samuel Rutherford e Jonathan Edwards igualmente como continuístas. Ora, vejamos se procede a afirmação. Na página 57 após informar sobre determinada ocorrência profética com Calvino, digo o que segue: “Neste sentido, é possível admitir a possibilidade de clarividência sem ser necessariamente um carismático. E prossigo dizendo que “a despeito do que Calvino tenha escrito dentro de uma visão pessoal sobre pontos assumidamente controversos, ou sobre textos em particular, foi posto à prova, conforme demonstrado na narrativa há pouco citada e vista na sua biografia escrita por Beza, qual seja, que ocorrências miraculosas não foram completamente excluídas nem do seu credo nem da sua experiência” (p.58). Na página 94, analisando algumas ocorrências no ministério de George Wishart (1513-1546), assevero: “É preciso que se diga que tais reuniões não eram ajuntamentos em busca novas revelações proféticas. O povo juntava-se para ouvir atentamente a exposição bíblica”. E mais adiante, na página 96, ainda sobre ele, afirmo: “As profecias aqui registradas não eram o norte de seu ministério. Sua função como pregador da Palavra inspirada era a atividade em que se dedicava. Pregar as Escrituras com fidelidade de maneira a instruir o povo em todo desígnio de Deus era seu alicerce ministerial. Mas isto não o impediu de se dedicar à oração e de ser canal da vocalização profética em seu tempo.” Já no capítulo onde analiso as profecias de John Knox (1505-1572), na página 106, registro minha impressão acerca de um relato do próprio em que ele afirma que suas esperanças “não repousam em seu poder profético, porque este poder estava sujeito à cessação. Sua confiança está alicerçada na Palavra revelada, ainda que ele seja difusor da anunciação de fatos estranhos e incomuns em seus dias”. E desta forma, sigo no decorrer do livro inteiro fazendo afirmações semelhantes. Assim sendo, quem de fato usa textos de maneira dogmaticamente seletiva? O autor do artigo somente confirma que se utiliza da máxima de Lenin: “Acuse seus adversários daquilo que você faz; chame-os daquilo que você é.”

Quanto à minha interpretação acerca das linhas gerais da Confissão de Fé, bem como da Assembleia que a redigiu, o articulista omite expressões centrais de meu raciocínio e induz o leitor de sua crítica a erro. Ele pinça determinada afirmação particular para dizer que a linha de pesquisa empreendida no livro sugere que os delegados de Westminster combatiam tão somente o romanismo. E omite do contexto uma palavra crucial para o entendimento de meu raciocínio. Na transcrição abaixo, o uso da expressão “por exemplo” por si só explica que meu intento é dizer que a prática do comércio de indulgências promovida pela ICAR, era “um dos” problemas. Apontar “um dos problemas”, não é o mesmo que afirmar haver um “único”:

Os teólogos de Westminster estavam se opondo claramente à tradição romanista das indulgências, por exemplo. Neste sentido, ninguém poderia se apresentar como portador de nova revelação divina referente à salvação humana, tendo em vista o assentamento definitivo de doutrina a respeito. (p.36).
]
Diferente do afirmado, eu não situo a polêmica como direcionada única e exclusivamente à Igreja de Roma como sugerido. A propósito, mantenho a mesma percepção de Robert Letham e do Derek Thomas ao apontar a disputa como antiga. O conflito com os romanistas e anabatistas é denunciado por mim na página 49 de Sob os céus da Escócia, da seguinte forma:

Ele também pronunciou-se contra o erro daqueles aos quais chamava de entusiastas, que relativizavam as Escrituras e a autoridade da Igreja ao apelarem para supostas revelações diretas e especiais de Deus. Não obstante, Calvino os combatia porque, em geral, os ensinos dos entusiastas referentes às reivindicadas manifestações de revelação eram contrários às Escrituras Sagradas. O conteúdo dos ensinos contrariava a Bíblia e, portanto, colocavam em xeque as revelações canônicas. [... Neste caso, para Calvino, seria um erro conceber que Deus entrasse em demanda contraditória contra si próprio. Em ligeira síntese, Calvino combate a pretensa autoridade do entusiasta de seu tempo, sobretudo porque seus ensinos contrariavam a Bíblia e isto era inconcebível para o reformador.

Antes, no entanto, ainda na página 26, trago ao conhecimento do leitor quais seriam tais ensinos e revelações, ao citar, como exemplo, o conteúdo das pregações apocalípticas de Melchor Hoffman.  E quanto aos quakers, não merece prosperar a alegação do articulista de que os conflitos com eles se davam porque entenderam a CFW como cessacionista. A refrega era na busca pela apropriada definição sobre o aspecto ordinário/extraordinário da revelação imediata. O que eles não aceitavam era que as comunicações do Espírito com o espírito do crente fossem confinadas ao status de extraordinárias. Para os quakers, essa comunicação tinha caráter essencialmente ordinário. John Howe teceu considerações importantíssimas a este respeito em The Whole Works of John Howe, estabelecendo distinções entre revelação sobrenatural imediata, mediata, profecia, iluminação, premonições, etc.. Samuel Rutherford estabeleceu a revelação sobrenatural em quatro categorias distintas (p. 69), a saber: 1) Revelação profética; 2) Revelação especial somente ao eleito; 3) Revelação de alguns fatos estranhos a homens piedosos; 4) Revelação falsa e satânica.[3] Com isto, buscava-se preservar as revelações canônicas na formação da Escritura, de outras manifestações que se mostravam recorrentes no século 17. Eu avalio as conclusões de Rutherford com muita seriedade porque entendo como o Dr. Poythress que ele foi efetivamente o líder “na orientação teológica dos assuntos mais controvertidos discutidos na Assembleia” (p.68). Sua posição sobre o tema foi acatada, qual seja, que revelação sobrenatural, como evento extraordinário, pode acontecer mesmo com o encerramento do cânon. Além dos dois, William Bridge fez o mesmo especialmente no sermão Scripture light the most sure light. A ideia era separar o joio do trigo, visto que muitos grupos místicos reclamavam possuir revelações diretas da parte de Deus e causavam toda sorte de confusão com vários ensinos contrários à verdade revelada inclusive pelo próprio Cristo. Por isso o uso, por exemplo, do texto de Hebreus 1.1 na CFW.

Mas para entender melhor o conflito envolvendo os quakers, é de bom alvitre ouvi-los. Robert Barclay (1648-1690), importante teólogo do movimento, apelou para o texto de que “ninguém conhece o Filho senão o Pai; e ninguém conhece o Pai a não ser o Filho, e aquele a quem o Filho o desejar revelar” (Mt 11.27. KJV). Para quakers proeminentes, esta revelação do Filho se dá “no” e “pelo” Espírito, portanto, o testemunho deste é o único meio pelo qual o cristão pode alcançar o verdadeiro conhecimento de Deus. A cizânia se desenrolava no sentido de que, para aqueles, a Escritura não poderia ser única regra de fé e prática, mas o Espírito Santo, revelando-se internamente ao crente. Responder a este padrão subjetivo foi o motriz dos esforços puritanos para assentar a cláusula de que a Bíblia, mediada pelo Espírito era de fato a fonte pela qual todas as demandas deveriam ser julgadas. Este ponto da disputa restou evidente na conhecida Confissão de Fé Quaker The Confession of the Society of Friends, Commonly Called Quakers (1675).

Barclay também sugere que a ferrenha oposição dos quakers em relação aos puritanos girava em torno de uma exacerbada busca por conhecimento acadêmico. Esta busca, segundo ele, não avalizava o verdadeiro conhecimento de Deus nem era garantia de espiritualidade profunda. Defende também que embora a Escritura fosse autoritativa, era um fundamento secundário e subordinado ao Espírito. Este é o guia e principal líder segundo o qual os santos são levados à verdade. Para os quakers, o Espírito é superior e não se subordina à Palavra. Por sua vez, George Fox (1624-1691) afirmou o Cristo como o Logos divino, o Verbo encarnado, e a Escritura como palavras de Deus. Fox sustentava a superioridade de Cristo em relação à Escritura.[4] Em síntese, a Escritura são palavras de Deus, mas não é Deus.

A discussão com os quakers e outros místicos não estava associada necessariamente quanto à possibilidade de revelação extra-bíblica, mas em definir este tipo de revelação como extraordinária, ao invés de ordinária como desejavam os quakers. Mas este detalhe foi expresso na Confissão de maneira subjacente. Os quakers também foram combatidos pelos puritanos por que algumas das conclusões eram flagrantemente contraditórias, não apenas em relação à Escritura mas às próprias teses que defendiam. Tome como exemplo uma declaração confusa de Barclay ao afirmar que “a revelação interna não contradiz as Escrituras e nem a correta e sã razão”, para logo em seguida afirmar que “a revelação não pode ser julgada pelas Escrituras, nem pela sã e correta razão.” Os puritanos disputavam a própria existência de revelações imediatas nos moldes quakeristas. Para eles, a ocorrência de profecias não era mais possível de acontecer ordinariamente como no NT. Extraordinariamente, talvez.

No entanto, o articulista alega que a interpretação dos quakers sobre o que se redigiu no capítulo primeiro da CFW é crucial para entender que os divines estavam de fato falando irrestritamente de cessação revelacional imediata. Parece-me claro que Richard Cameron e outros tantos puritanos nem se deram conta que a CFW era cessacionista nestes moldes, visto que em anos posteriores à publicação verificou-se atividade profética entre eles. Uma das profecias, pronunciada por Cameron, é citada na página 125 de Sob os céus da Escócia, muitos anos depois do encerramento de Westminster. O articulista fez uso da obra de David Dickson, sob a premissa de que este possui autoridade para firmar entendimento definitivo sobre a CFW por ser dela contemporâneo, e, portanto, familiarizado com seu contexto religioso, bem como com as suas conclusões. Convém perguntar: Os quakers também não eram contemporâneos e também não estavam familiarizados com o contexto? Os anabatistas, seekers, et al., também não? No entanto, ele traz ao nosso conhecimento a obra intitulada Praelectiones in Confessionem Fidei relatando impressões sobre um tipo rigoroso de cessacionismo puritano esposado por Dickson. Valer-se de Êxodo 17.14 para afirmar categoricamente que quanto aos modos de revelação “[...] todos findaram com a escrita” (Êx 17:14), me parece um exagero típico. Onde tal “indício” escriturístico pode ser utilizado apropriadamente como prova de cessação revelacional ad eternum? Apenas por que o Senhor ordenou que se registrasse um fato e que este fato memorial fosse lido para Josué? Usar este tipo de exemplo para determinar a cessação revelacional definitiva é o mesmo que apresentar uma faca como evidência de um homicídio praticado com arma de fogo.

A teologia reformada não é tão melindrosa como a erudição cessacionista deseja nos fazer crer. Sobre a questão que envolve a natureza do NT, por exemplo, Calvino sobre o texto de 2Tm 3.17, disse:

Ao falar 'Escritura' significa que Paulo está falando simplesmente do que chamamos de Antigo Testamento; como ele pode dizer que pode fazer um homem perfeito? Se é assim, o que foi adicionado mais tarde através dos Apóstolos parece ser supérfluo. Minha resposta é que, tanto quanto a substância da Escritura está em causa, nada foi acrescentado. Os escritos dos apóstolos não contém nada além de uma simples e natural explicação da Lei e dos profetas, juntamente com uma descrição clara das coisas nele expressas.[5]


Por conseguinte, o articulista se socorre em Robert Letham, corroborando a tese de que “a questão da revelação especial não foi alvo de discórdia que demandasse uma acomodação de opiniões divergentes.” E prossegue argumentando que “houve acordo generalizado sobre o seu conteúdo”. Mas não me ocorre tenha eu afirmado no livro que havia dissensão no Concílio sobre o conteúdo da revelação especial conforme registrado na Bíblia. Sugere também que os debates na Assembleia de Westminster mantinham-se sob um “clima ameno”, sem maiores controvérsias e polêmicas. Ora, se John Milton, assim como erastianos e representantes do Parlamento (alguns descrentes?) estavam presentes, dizer que não houve polêmica é ignorar a natureza dos conflitos humanos. John Milton mesmo é conhecido por uma posição controvertida sobre o divórcio que foi duramente rechaçada pela Assembleia. Mas ouçamos o Dr. Milne, sobre o background daqueles delegados:

“Eles vieram para a Assembleia com um pano de fundo profundamente influenciado por um protestantismo polêmico que deve muito a esses estudiosos como Martinho Lutero, João Calvino, Zwinglio Huldrich, Henry Bullinger e Pedro Mártir Vermigly. Enquanto João Calvino foi sem dúvida a força dominante entre os puritanos e os escoceses ele não era de modo algum a única. Além disso, o “Calvinismo” foi representado por um espectro de opiniões teológicas dentro de parâmetros reconhecíveis. Isso ficou evidente na própria Assembleia, onde os debates sobre a doutrina da expiação foram expostos radicalmente com diferentes interpretações da sua extensão e aplicação. Não devemos supor que porque Calvino manteve certos pontos de vista sobre a cessação da revelação sobrenatural, estes foram necessariamente espelhados nos documentos da Assembleia de Westminster.”[6]


Quanto aos comentários sobre o termo “salvação” que uso para revisar a majoritária interpretação da Confissão, o articulista subscreve que entre os puritanos havia aplicação diversa. A tese do Dr. Milne está correta, no entanto o articulista revela que este não apreendeu acertadamente seu escopo. Ou seja, ele busca provar que o termo “salvação” expresso no capítulo I da CFW, tem uma abrangência tal que se torna difícil saber qual tipo de salvação os delegados de Westminster tinham em mente. E que em relação a isto, tanto minha análise, quanto minha conclusão laboram em erro. A questão é que meu ponto trata especificamente do termo e seu uso no capítulo I; e mesmo este uso tem conexão direta com os demais ao longo do documento (2.1; 3.5,6). Não há conflito entre a minha tese e a do Dr. Garnet Milne. Ou seja, ainda que o termo “salvação” pudesse ter significado diverso na CFW, no capítulo primeiro ele se relaciona essencialmente com soteriologia e com uma teologia escatológica do Reino mais abrangente com referência ao seu aspecto primordialmente espiritual. Berkhof diz que o Reino de Deus é representado não como temporal, mas como um reino eterno (Is 9.7; Dn 7.14; Hb 1.8; 2Pe 1.11). Assim, entrar no Reino do futuro é entrar num eterno estado (Mt 7.21-22), é entrar na vida (Mt 18.8-9), é ser salvo (Mc 10.25-26)”.[7] [Grifo nosso].

É flagrante neste sentido que o articulista parece não haver compreendido a conclusão do Dr. Milne. Este, quando menciona os aspectos temporais da salvação, avaliados sob o crivo da teologia do Reino de Deus mantém entendimento próximo ao meu. Contudo, sobre isto, o articulista diz:

“Milne observa ainda que uma pesquisa nos Padrões de Westminster “revela que o substantivo, as formas verbais e o conceito de ‘salvação’ aparecem muitas vezes ao longo desses documentos, mas a definição do conceito não é uniforme”.[8] Como evidência dessa afirmação creio que alguns exemplos possam ser apresentados. No Capítulo 2.1, sobre Deus e a Santíssima Trindade, salvação é entendida como perdão dos pecados e libertação da justa retribuição da ira de Deus que não inocenta o culpado. Em 3.5, sobre o Eterno Decreto de Deus, salvação é conceituada como eleição em Cristo Jesus para a glória eterna. Já no parágrafo 6 desse mesmo capítulo os elementos dessa salvação são apresentados, a saber: “santificação, justificação, obediência, santidade, adoção como filhos e boas obras”.[9] No caso, salvação compreende toda a Ordo Salutis. Milne conclui a sua investigação sobre o sentido de “salvação” na CFW afirmando: “Dentro dos capítulos da CFW nós encontramos evidência interna para uma ampla definição de salvação que transcende redenção pessoal ou salvação escatológica e que oferece ao crente benefícios que incluem bênçãos temporais”.

Agora, pedindo licença ao articulista, indago: “Perdão dos pecados”, “libertação da justa retribuição da ira de Deus que não inocenta o culpado” (uso do termo salvação na CFW 2.1), “eleição em Cristo para a glória eterna” (uso em CFW 3.5), ou, “santificação”, “justificação”, “obediência”, “santidade”, “adoção como filhos e boas obras” não representam a mesma coisa? (CFW 3.6). Só quem é salvo, é justificado, obedece, santifica-se, tem o perdão dos pecados e fica livre da justa retribuição da ira de Deus que não inocenta o culpado. Ora, se dizemos que alguém foi eleito em Cristo para a glória eterna, certamente teremos dito que ele foi o quê, senão salvo? Ou, se afirmarmos que alguém foi liberto da justa retribuição da ira de Deus, estaremos afirmando o quê? Que este alguém foi salvo, óbvio. E se eu assevero que um pecador foi justificado, não concluo que tal justificação se dá para que a salvação (como benção temporal e eterna) se estabeleça (Rm 8.29-30)? Neste sentido é que o capítulo 14 da CFW diz que salvar-se é “aceitar e receber a Cristo e descansar só nele para a justificação, santificação e vida eterna, isso em virtude do pacto da graça”.

O que o Dr. Milne sugere é que o termo “salvação” para os puritanos pode ser abrangente em certo sentido, mas está ligado a uma única ideia central (ordo salutis). E, evidente que transcende o ponto de redenção pessoal (ou particular). Isto por que, na Escritura, salvação ora é mencionada a indivíduos, ora a povos, nações, etc. Ora se fala em redenção de povos, ora, de pessoas em particular. Basta uma lida em Romanos 8-9 para compreender isso. Além do mais, trata-se de redenção escatológica tanto quanto se trata de salvação do pecado estrutural que mantém influência neste mundo tenebroso. Salva-se também aquele que se opõe à esta estrutura e se rende ao padrão do Reino de Deus em confronto com o mundo que jaz no maligno. “Salvo” pode considerar-se aquele que não se conforma com este século (Rm 8), e é neste sentido que, ao meu ver, a redenção assume também aspecto de benção temporal apontado por Milne. Todavia, o articulista se esforça inutilmente no propósito de tentar nos fazer acreditar que existe diferença etimológica substancial entre “tire uma xerox” e “tire uma xérox”, quando “tenho sede de água” e “vou à sede da empresa” é que são realmente diferentes. A palavra “sede”, a depender do contexto e uso empreendido, assume conotação diametralmente distinta.

E quanto a este último ponto, ou seja, o fato do articulista não haver entendido o que o Dr. Milne escreveu, de certa forma revela uma dificuldade hermenêutica alimentada pela teologia dogmática. Em síntese, ele leu e não entendeu Sob os céus da Escócia, tanto quanto leu e não entendeu o livro do Dr. Milne.

Por derradeiro, cabe aqui uma pergunta, prezado leitor: Porque a Confissão de Fé de Westminster inicia com um capítulo sobre as Escrituras Sagradas? Você nunca parou para se perguntar a respeito? Natural seria que o primeiro capítulo reservasse espaço para tratar sobre ontologia divina. Sendo esta, a prática corriqueira, por que os teólogos de Westminster fizeram diferente? Penso que para registrar que estas tensões eram tão fortes e significativas que exigiram lugar de destaque e primazia nos debates. Mas este é um ponto que abordaremos no volume 2.



[1] Exposição sobre Capítulo 12 de Romanos. O comportamento Cristão. Editora PES. 2003, p. 283.
[2] A propósito, o relato de Lloyd-Jones combinado com o meu, aponta que foram no mínimo duas ressurreições operadas a partir do ministério de Welsh.
[3] RUTHERFORD, Samuel. A Survey of Spiritual Antichrist. London: Printed by F.D. & R.I for Andrew Grookeand, 1648, chap. vii of revelation and inspiration, p.39.
[4] FOX, George. The Works of George Fox. Philadelphia: M.T.C Gould, Journal, vol. i, 1831, p; 171.
[5] CALVINO, João. The Second Epistle of Paul the Apostle to the Corinthians and Epistles to Timothy, Titus and Philemon, eds. D.W Torrance, T.F. Torrance, trans. T.A. Smail, Vol. 1, Calvin's Commentaries. Grand Rapids: W.m B. Eerdmans Publishing Co., 1964.
[6] MILNE. Garnet Howard, The Westminster Confession of Faith and Cessation of Special Revelation. A Thesis submitted for the degree of Doctor of Philosophy at University of Otago, Dunedin, New Zealand, 2004, pp 44-45. Como minhas consultas se deram na própria tese do Dr. Garnet, encaminhada gentilmente por ele, e não no livro como o articulista, transcrevo ipsis literis o trecho como está na tese: B. Theological inheritance: “They came to the Assembly with a background profoundly influenced by a polemical Protestantism which owed much to such scholars as Martin Luther, John Calvin, Huldrich Zwingli, Henry Bullinger and Peter Martyr Vermigli. While John Calvin was arguably the dominant theological force among the Puritans and the Scots, he was by no means the only one. Furthermore, “Calvinism” was represented by a spectrum of theological opinions within recognizable parameters. This was evident at the Assembly itself, where debates on the doctrine of the atonement exposed radically different interpretations of its extent and application. We should not assume that because Calvin held certain views on the cessation of supernatural revelation, these were necessarily mirrored in the Westminster Assembly documents".
[7] BERKHOF. Louis, Systematic Theology. Grand Rapids: Eerdmans, 1959, p. 708.

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